Gastos públicos

Regra de ouro: R$ 288 bi do Orçamento de 2026 dependem do Congresso

A regra de ouro proíbe o governo de se endividar para pagar despesas do dia a dia. Veja como o Congresso libera exceções e como conferir a conta.

Fachada do Palácio do Congresso Nacional, em Brasília, com as duas torres e as cúpulas do plenário, e uma placa com o nome do prédio em primeiro plano.
Fachada do Palácio do Congresso Nacional, em Brasília. É ali que deputados e senadores votam os créditos exigidos pela regra de ouro. Foto de arquivo.Foto: Roque de Sá / Agência Senado / Wikimedia Commons (CC BY 2.0)

A Lei 15.346, de 14 de janeiro de 2026, é a Lei Orçamentária Anual (LOA) deste ano. Seu artigo 3º, parágrafo 2º, reserva R$ 288,1 bilhões em despesas que só podem ser financiadas com dívida se o Congresso autorizar. O motivo tem nome: regra de ouro.

A regra de ouro está no artigo 167, inciso III, da Constituição de 1988. Ela proíbe o governo de se endividar para pagar despesas correntes, como salários e o custeio do dia a dia. Dívida, aqui, são as operações de crédito, como a emissão de títulos públicos.

O limite é o total das despesas de capital: investimentos, inversões financeiras e amortização da dívida pública, conforme a Lei 4.320, de 1964. Se a dívida prevista passa desse total, o Orçamento precisa de uma autorização extra.

Como o Congresso libera a exceção

O Congresso pode aprovar créditos suplementares ou especiais, com finalidade precisa, desde que a votação tenha maioria absoluta. Crédito suplementar reforça uma despesa já prevista. Crédito especial cria uma despesa que não tinha dotação própria.

Maioria absoluta é mais da metade dos membros de cada Casa: pelo menos 257 deputados e 41 senadores, segundo a Agência Câmara. O projeto de lei do Congresso (PLN) passa pela Comissão Mista de Orçamento (CMO) e depois vai à sessão conjunta.

A exceção não é rara. Em novembro de 2025, o Congresso aprovou um crédito de R$ 34,3 bilhões ligado à regra de ouro, segundo a Agência Câmara. Para a Instituição Fiscal Independente (IFI), a prática virou rotina desde 2019.

Quanto o Orçamento de 2026 depende do Congresso

O Tribunal de Contas da União (TCU) disse, sobre as contas de 2025, que a regra foi cumprida naquele ano, com margem de R$ 79,2 bilhões. Para 2026, o projeto de lei orçamentária (PLOA), enviado pelo governo, indicava insuficiência de R$ 313,5 bilhões.

O texto sancionado trouxe cerca de R$ 288,1 bilhões. A lei diz que essas despesas devem ser financiadas por operações de crédito que dependem de crédito suplementar aprovado por maioria absoluta.

Três estimativas para a insuficiência da regra de ouro em 2026 Em R$ bilhões. Insuficiência é o quanto a dívida prevista passa das despesas de capital.

Estimativa Valor Quem calcula
Projeto de lei orçamentária (PLOA) 313,5 Governo, citado pelo TCU
Lei 15.346 (LOA), art. 3º, §2º 288,1 Texto sancionado
IFI, agosto de 2026 288 Instituição Fiscal Independente
Tesouro, 3º relatório bimestral 180,6 Tesouro Nacional

Fonte: TCU; Planalto (Lei 15.346/2026); Poder360 (estimativas da IFI e do Tesouro). Elaboração: redação.

A primeira parte da conta é o PLN 23/2026, que pede R$ 185,5 bilhões. Segundo o Sou Brasília, 81,4% vão para o Ministério da Previdência Social e 18,6% para o Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome (MDS). A segunda, de R$ 102,5 bilhões, já foi autorizada por portarias da Secretaria de Orçamento Federal, segundo a IFI. Até esta apuração, não encontramos registro de votação do PLN.

O Tesouro Nacional fez outra conta. Seu relatório de receitas e despesas do 3º bimestre calculou insuficiência de R$ 180,6 bilhões, segundo o Poder360. A reportagem não explica a diferença entre as estimativas.

Como conferir

  1. Na lei. No Planalto, procure o artigo 3º, parágrafo 2º, da Lei 15.346. Ali está o valor que depende de autorização.
  2. No projeto. Pesquise o número do PLN no site do Congresso Nacional. A página mostra se ele está na CMO, na sessão conjunta ou já foi aprovado.
  3. No relatório. O Relatório Resumido da Execução Orçamentária (RREO), do Tesouro Nacional, sai a cada dois meses e traz um demonstrativo da regra de ouro.
  4. Na execução. O Siga Brasil, do Senado, reúne dados de receitas, despesas, emendas e pagamentos federais.

Segundo a reportagem do Poder360, o cumprimento da regra só é verificado ao fim do ano fiscal. Até lá, os números são estimativas.

O que diz a IFI: O diretor Alexandre Andrade afirmou à CNN que “todo ano o governo manda um projeto nesse sentido e o Congresso aprova”, o que garante “cumprimento formal da regra”. A fala está na reportagem do Poder360 de 4 de agosto de 2026.

O que isso significa

A regra de ouro impede dívida para pagar despesas do dia a dia. Sem a aprovação do Congresso, a lei não autoriza a dívida que financiaria os R$ 288,1 bilhões. O PLN de R$ 185,5 bilhões ainda aguarda votação, e o número final só se confirma no fim do ano.

Como fizemos: Usamos a Constituição (art. 167, III), a Lei 15.346/2026 (art. 3º, §2º), o PLN 23/2026, reportagens da Agência Câmara, do Sou Brasília e do Poder360, e a notícia do TCU sobre as contas de 2025, acessados em 25 de outubro de 2026. Calculamos a diferença entre o projeto e a lei (R$ 25,4 bi, ou 8,1%) e a soma de R$ 185,5 bi com R$ 102,5 bi. Não enviamos perguntas a órgãos; as posições vêm de entrevista e documentos públicos. Não consultamos o Tesouro Transparente nem a tramitação atual do PLN.

Fontes