Equipe de Flávio estudou corte de R$ 250 bi que o plano não quantifica
A equipe de Flávio estudou cortar 2% do PIB em INSS, BPC e pisos, mas a correção do mínimo só pela inflação cobre cerca de 6% da meta de R$ 250 bi.

A equipe econômica de Flávio Bolsonaro (PL) estudou um corte de cerca de 2% do Produto Interno Bruto (PIB), a soma de tudo o que o país produz. Em valores, seriam cerca de R$ 250 bilhões em gastos obrigatórios, como aposentadorias, que o governo é obrigado a pagar. A informação é da Folha de S.Paulo, publicada em 8 de outubro.
A reportagem diz que as medidas seriam reunidas numa “Super PEC da Transição”. O texto poderia ser enviado ao Congresso entre a eleição e a posse, se Flávio vencer o segundo turno. Uma PEC, proposta de emenda à Constituição, precisaria de três quintos dos votos em cada Casa, em dois turnos.
São três pontos. O reajuste do INSS, que paga aposentadorias, e do BPC, benefício pago a idosos e pessoas com deficiência de baixa renda, acompanharia só a inflação, sem os ganhos reais do salário mínimo. Os pisos de saúde e educação, que hoje são vinculados à receita do governo, passariam a ser corrigidos só pela inflação. Segundo a reportagem, o Bolsa Família ficaria fora.
O que o plano diz e o que não diz
O plano de governo registrado no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) fala em um “tesouraço” nos gastos e na redução de pelo menos dez ministérios. Ele não traz valor em reais para o corte, nem mudanças nas aposentadorias ou no BPC, segundo a Forbes.
A regra do salário mínimo rende pouco no primeiro ano. Segundo a BBC, corrigi-lo só pela inflação economizaria cerca de R$ 15 bilhões a R$ 16 bilhões. O cálculo é do economista Guilherme Klein, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e equivale a cerca de 6% dos R$ 250 bilhões. Ele diz que o efeito líquido pode ser menor, porque renda menor reduz consumo e arrecadação.
O peso maior está nas aposentadorias. Cerca de 70% dos beneficiários do INSS recebem o piso nacional, segundo dados da Folha citados pela BBC. Por isso, a maior parte do efeito tenderia a recair sobre aposentados de baixa renda. As fontes consultadas, porém, não trazem o valor de cada item que chegaria aos R$ 250 bilhões.
Um nome cotado para a equipe econômica, o investidor Marcelo Kayath, considera inviável um ajuste de R$ 200 bilhões em um ano, segundo o Estadão, reproduzido pelo Terra. Essa é uma paráfrase da reportagem, não uma citação direta.
A promessa e a conta
Flávio nega o corte. Em 8 de outubro, ele disse a jornalistas em Brasília: “Aposentado, fique tranquilo. Não caia nessa fake news do PT, dizendo que eu vou acabar com reajuste da aposentadoria”, segundo a Poder360.
A própria reportagem da Folha aponta o problema. A promessa de reajuste acima da inflação diverge do mecanismo descrito, que corrige INSS e BPC só pela inflação, segundo o IstoÉ Dinheiro, que reproduz a Folha.
Enquanto isso, Flávio promete reajustes acima da inflação e ampliar o Bolsa Família. No debate da Band, em 18 de outubro, disse: “Com a nossa eleição, rapidamente vamos ter um espaço no orçamento de mais de 200 bilhões de reais”. A coordenadora do programa, Daniella Marques, disse à rádio CBN Bahia, em 19 de outubro: “Quem está no Bolsa Família, vai ter uma regra de transição de dois anos para que possa abrir o seu negócio”. Se a transição der errado, a pessoa volta ao programa automaticamente, segundo o Metrópoles.
A favor de Flávio, o plano registrado não traz o corte, e a Folha diz que o Bolsa Família ficou de fora das medidas estudadas. A campanha afirma que ainda não há posição oficial sobre o tema. Em 16 de outubro, ele disse à TV Globo que não vai alterar a Constituição para mudar os pisos de saúde e educação, segundo o InfoMoney.
Os números mostram o tamanho do problema. Corrigir o salário mínimo só pela inflação economiza cerca de 6% da meta. As medidas descritas pelas fontes ainda não mostram como chegar a R$ 250 bilhões. A pergunta fica em aberto até o segundo turno, em 25 de outubro: de onde sairiam os R$ 250 bilhões, e quem pagaria a conta.
O que diz Flávio Bolsonaro: Ele nega cortes em benefícios sociais e promete reajustes de aposentadorias acima da inflação, segundo a Poder360 (8 de outubro). Em 16 de outubro, disse que manterá os ganhos reais do salário mínimo e não mudará os pisos de saúde e educação, segundo o InfoMoney.
Como fizemos: Usamos a reportagem da Folha, reproduzida pelo IstoÉ Dinheiro em 8 de outubro de 2026, a estimativa da BBC publicada pelo O Povo em 19 de outubro, o plano de governo como resumido pela Forbes e as entrevistas citadas, acessados em 21 de outubro de 2026. O percentual de 6% é cálculo da redação: R$ 15 a R$ 16 bilhões divididos por R$ 250 bilhões. Não há conta item a item do corte nas fontes, e não reconstruímos o total. Os 70% de beneficiários do INSS são dados da Folha citados pela BBC, não cálculo da BBC.
Fontes
- Equipe de Flávio estuda corte de 2% do PIB em despesas, diz Folha — IstoÉ Dinheiro
- O que Flávio Bolsonaro e Lula propõem sobre reajuste do salário mínimo e aposentadorias — BBC, via O Povo
- Flávio nega corte em aposentadoria e cita reajuste acima da inflação — Poder360
- Flávio diz que não vai desvincular reajuste do mínimo e nem alterar pisos de saúde — InfoMoney
- Tesouraço: plano econômico de Flávio Bolsonaro — Forbes
- Lula critica tesouraço e questiona onde Flávio Bolsonaro fará corte de R$ 250 bilhões — Terra
- Bolsa Família terá período de 2 anos para transição, diz campanha de Flávio — Metrópoles
- Debate Lula e Flávio Bolsonaro: economia, dívida e juros — ND+



