Entidade ligada ao Dark Horse pediu R$ 8,59 milhões à Lei Rouanet
Instituto ligado à produtora do Dark Horse teve negado pedido de R$ 8,59 milhões à Rouanet, e ONGs do dono da produtora receberam emenda e contrato municipais.

Uma entidade ligada ao filme Dark Horse, sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro, pediu R$ 8,59 milhões à Lei Rouanet, a lei federal de incentivo à cultura. O pedido, para quatro eventos, foi negado, segundo a Agência Lupa.
Na entrevista ao Jornal Nacional, em 28 de agosto, Flávio Bolsonaro (PL) disse que não buscou dinheiro da Lei Rouanet. A Lupa classificou a frase como “falta contexto”. A checagem lembra que a lei não financia longas-metragens, ou seja, filmes de longa duração. A Lupa cita outro mecanismo usado por filmes, o Fundo Setorial do Audiovisual.
A Lei Rouanet permite que empresas e pessoas abatam parte do imposto de renda devido com projetos culturais aprovados pelo governo. Emendas são indicações de verbas no orçamento feitas por parlamentares para entidades e projetos. ONG é a sigla de organização não governamental. São dois tipos de dinheiro público, e os dois aparecem em torno desse filme.
O que o Intercept mostrou
Em dezembro de 2025, o Intercept Brasil publicou que o dono da produtora do filme comanda ONGs ligadas a igrejas evangélicas. Uma delas recebeu R$ 1,08 milhão em emendas da Câmara Municipal de São Paulo para um evento de jovens da Igreja Universal. Outra tem um contrato de R$ 108 milhões para Wi-Fi na cidade de São Paulo. As duas verbas são municipais: a emenda sai do orçamento da cidade, e o contrato é pago pela prefeitura.
Esses valores não provam irregularidade. Uma emenda ou um contrato pode ser legal e, ainda assim, merecer conferência sobre a execução. O dinheiro vem de impostos pagos pelos moradores da cidade, por isso o acompanhamento importa.
A reportagem não mostra dinheiro de igrejas indo para o filme. Flávio disse, na mesma entrevista, que os contratos e a origem dos recursos já tinham sido apresentados. A Lupa classificou essa afirmação como falsa.
O que liga Flávio ao filme, e o que não liga
Segundo a Lupa, citando a Folha de S.Paulo, o pedido à Rouanet foi feito por um instituto presidido por uma sócia da produtora. O pedido incluía um festival da Marcha para Jesus, entre os quatro eventos. Não há, nas fontes consultadas, ligação entre esse evento e Flávio.
Como a lei não financia longas-metragens, o pedido trata de eventos, não do filme em si. Ainda assim, partiu de uma entidade presidida por uma sócia da empresa que produz o filme.
O que liga Flávio ao filme é outro fato. Segundo o Intercept, ele pediu ao banqueiro Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, US$ 24 milhões para o projeto. Flávio é investigado no inquérito do Supremo Tribunal Federal (STF) sobre esse dinheiro, mas não é réu.
O destino desse dinheiro também levanta perguntas. Segundo o Intercept, os recursos de Vorcaro foram para o Havengate, um fundo no Texas parado desde que seu projeto imobiliário não obteve licenças. O primeiro pagamento, de US$ 2 milhões, chegou ao fundo em 14 de fevereiro de 2025.
Não há, nas fontes consultadas, nenhum vínculo documentado entre Flávio e as emendas ou o contrato de Wi-Fi. A favor de Flávio, há um ponto: a lei não financia filmes longos, e o pedido foi negado. Sua frase, porém, omite que o pedido partiu de uma entidade ligada ao filme.
Pelas fontes consultadas, o dinheiro público aparece em volta do filme, e não nele. De um lado, emendas e um contrato municipal ligados às ONGs do dono da produtora. De outro, um pedido à Rouanet para eventos. Nenhum desses fatos aparece documentado como ligado a Flávio.
Quem quiser conferir pode buscar o contrato e as emendas nos portais de transparência da prefeitura e da Câmara Municipal de São Paulo. Pela Lei de Acesso à Informação, qualquer pessoa também pode pedir a prestação de contas dos recursos.
Em aberto, a Polícia Federal (PF) pediu mais 90 dias, em 16 de outubro, para concluir o inquérito do Dark Horse, e não há decisão sobre o prazo. Cabe à investigação dizer se algum recurso público chegou ao filme.
O que diz Flávio Bolsonaro: Ele diz que o dinheiro de Vorcaro era privado e lícito, e que ser senador não deu nada ao banqueiro, segundo a CNN Brasil. Sobre a Rouanet, disse que não buscou o dinheiro, e a Lupa disse que faltou contexto. As fontes consultadas não trazem resposta da produtora nem da entidade às perguntas sobre emendas e contrato.
Como fizemos: Usamos a checagem da Agência Lupa sobre a entrevista de Flávio ao Jornal Nacional, em 28 de agosto de 2026, e a reportagem do Intercept Brasil de dezembro de 2025, acessadas em 21 de outubro de 2026. Não conseguimos abrir a reportagem do Intercept nesta checagem: os valores de emendas, contrato e ONGs são atribuídos a ela. A informação sobre a sócia e o instituto vem da Lupa, que cita a Folha de S.Paulo. Não fizemos cálculos próprios.
Fontes
- Ao vivo: checagem da entrevista de Flávio Bolsonaro ao Jornal Nacional — Agência Lupa
- Reportagem do Intercept Brasil sobre ONGs ligadas à produtora do Dark Horse (dez. 2025)
- Áudio: Flávio negociou milhões com Vorcaro — Intercept Brasil
- Fundo Havengate abandonou projeto antes de receber milhões de Vorcaro — Intercept Brasil
- Mendonça incluiu Flávio Bolsonaro como investigado no caso Dark Horse — Agência Brasil
- Flávio diz que dinheiro de Vorcaro para Dark Horse era lícito e privado — CNN Brasil
- PF pede prorrogação de inquérito sobre financiamento do Dark Horse — ConJur



