Flávio processou repórteres sobre imóveis pagos em dinheiro vivo
Após o UOL mostrar 51 imóveis da família Bolsonaro pagos total ou parcialmente em dinheiro vivo, Flávio processou os repórteres por difamação.

Em agosto de 2022, a UOL revelou que a família Bolsonaro negociou 107 imóveis. Pelo menos 51 deles foram pagos total ou parcialmente em dinheiro vivo. Essas operações somam R$ 13,5 milhões, ou R$ 25,6 milhões em valores corrigidos pela inflação, segundo a apuração. A reportagem saiu durante a campanha de 2022, em que Jair Bolsonaro tentava a reeleição à Presidência.
Pelo menos 25 desses imóveis estão dentro das investigações sobre rachadinha, segundo o levantamento. A reportagem não encontrou a parcela de Flávio Bolsonaro nessas compras. Os números são da família, e não do senador.
Compras pagas em dinheiro vivo são justamente o tipo de operação que os controles contra lavagem de dinheiro acompanham. Pagar em espécie não é crime por si. A pergunta central é de onde veio o dinheiro usado em cada compra.
Para quem acompanha o uso do dinheiro público, o ponto é direto. A rachadinha é o esquema em que assessores devolvem parte do salário ao parlamentar. Salários de assessores saem de recursos públicos, por isso a origem do patrimônio interessa ao debate sobre transparência.
O que as investigações já mostraram
Em fins de 2020, o Ministério Público do Rio de Janeiro (MP-RJ) denunciou 17 pessoas, entre elas Flávio e o ex-assessor Fabrício Queiroz. A denúncia falava em peculato, que é o desvio de dinheiro público por quem tem cargo público, além de lavagem de dinheiro e organização criminosa.
O dinheiro em espécie já aparecia no centro do caso em 2019. Segundo o Ministério Público, Queiroz recebeu R$ 2,06 milhões em 483 depósitos de 13 assessores, dos quais 69% em espécie. Ele também teria sacado cerca de R$ 2,9 milhões em dinheiro. Essa acusação foi depois afetada pela anulação de provas.
O próprio Flávio admitiu, em agosto de 2020, que Queiroz pagou contas pessoais dele. Entre elas estavam cerca de R$ 100 mil do plano de saúde da família, segundo o Congresso em Foco. Flávio disse que o dinheiro usado era dele. A admissão é dele, e não de seus acusadores.
Flávio nunca foi julgado. Em 2021, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) anulou quebras de sigilo bancário e fiscal. No fim do mesmo ano, o Supremo Tribunal Federal (STF) anulou quatro de cinco relatórios do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), órgão que monitora movimentações financeiras suspeitas.
Em maio de 2022, o Tribunal de Justiça do Rio (TJ-RJ) rejeitou a denúncia, porque ela se apoiava em provas anuladas. Em 2025, o ministro Gilmar Mendes negou os últimos recursos do Ministério Público, mas lembrou que a anulação não impede uma nova denúncia. Anular provas não é declarar inocência. O caso é de denunciado, nunca julgado.
Um processo contra repórteres
Depois da reportagem, Flávio processou os repórteres por difamação. Uma decisão chegou a mandar apagar as reportagens. O ministro André Mendonça reverteu essa ordem na mesma noite, em setembro de 2022.
Uma ação por difamação discute se a reportagem ofendeu alguém. Ela não responde de onde veio o dinheiro das compras. Não encontramos, nas fontes desta reportagem, documento público do senador sobre a origem desses recursos.
A escolha tem peso. Diante de uma reportagem sobre dinheiro vivo, o candidato não apresentou recibos, extratos ou escrituras. Recorreu à Justiça contra os jornalistas. A ordem para apagar as reportagens foi revertida na mesma noite.
O que diz Flávio Bolsonaro: Ele processou os repórteres por difamação, segundo o Poder360. No caso das rachadinhas, diz que não houve esquema, que Queiroz agiu sozinho e que as provas foram obtidas de forma ilegal. Não encontramos declaração pública dele sobre a origem do dinheiro dos imóveis.
A reportagem registrou as compras, mas nenhuma acusação contra Flávio decorreu delas, segundo o levantamento consultado. O que ficou sem resposta pública é a origem do dinheiro.
O segundo turno da eleição presidencial acontece em 25 de outubro de 2026. Até lá, a origem do dinheiro dessas compras segue sem explicação documental do candidato nas fontes consultadas. Para quem acompanha o dinheiro público, esse é o dado que ainda falta.
Como fizemos: Reunimos as reportagens listadas em Fontes, incluindo a apuração da UOL de agosto de 2022, republicada pelo Congresso em Foco, e os documentos sobre o caso das rachadinhas. Não fizemos levantamento próprio em cartórios nem em bases de imóveis. Os valores de 2022 são os da apuração original, sem atualização posterior.
Fontes
- Família Bolsonaro adquiriu 51 imóveis em dinheiro vivo — Congresso em Foco (apuração da UOL)
- Justiça manda apagar reportagens sobre imóveis dos Bolsonaros — Poder360
- Queiroz recebeu R$ 2 milhões em depósitos de 13 indicados por Flávio, diz MP — A Gazeta
- Flávio Bolsonaro admite que Queiroz pagava suas contas e critica Lava Jato — Congresso em Foco
- MP do Rio denuncia 17 investigados por lavagem de dinheiro e peculato — Agência Brasil
- STF anula 4 relatórios do Coaf que miravam Flávio no caso das rachadinhas — Poder360
- Reportagem da InfoMoney sobre a rejeição da denúncia pelo TJ-RJ (2022)
- Gilmar nega pedido para reabrir ação contra Flávio por rachadinha — Poder360



