Transparência

Lupa: é falso que Flávio já mostrou os contratos do Dark Horse

A Lupa classificou como falsa a afirmação de que contratos e dados do fundo já foram mostrados, e apontou falta de contexto na fala sobre a Lei Rouanet.

Flávio Bolsonaro fala atrás de um púlpito com microfones de emissoras, cercado por parlamentares, no Senado.
Flávio Bolsonaro (ao centro) em entrevista coletiva de parlamentares da oposição no Senado, em 18 de abril de 2023 (imagem de arquivo).Foto: Jefferson Rudy / Agência Senado / Wikimedia Commons (CC BY 2.0)

Flávio Bolsonaro disse, em entrevista ao Jornal Nacional, que os contratos do filme Dark Horse e os dados do fundo que recebeu o dinheiro já tinham sido mostrados. A Agência Lupa checou a frase, em agosto de 2026, e a classificou como falsa. Os documentos que explicariam o caminho do dinheiro não tinham sido apresentados.

O Dark Horse é um filme sobre Jair Bolsonaro. Segundo o Intercept Brasil, Flávio negociou com o banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, a promessa de US$ 24 milhões, cerca de R$ 134 milhões, para a produção. Pelo menos US$ 10,6 milhões, cerca de R$ 61 milhões, foram pagos entre fevereiro e maio de 2025.

O dinheiro foi para a Havengate, um fundo no Texas, nos Estados Unidos. O fundo é administrado por Paulo Calixto, advogado de Eduardo Bolsonaro, e estava parado. Foi registrado em 2020 para um projeto imobiliário que nunca obteve licenças, segundo o Intercept.

Na mesma checagem, a Lupa analisou outra frase do candidato: a de que o filme não usou dinheiro da Lei Rouanet. A agência classificou a fala como sem contexto. A produtora tinha pedido R$ 8,59 milhões à Rouanet, e o pedido foi recusado.

A Lei Rouanet é a lei federal de incentivo à cultura. Ela permite que empresas e pessoas abatam do Imposto de Renda o valor investido em projetos culturais aprovados. Na prática, é dinheiro público: imposto que o governo deixa de arrecadar.

Dizer que o filme não tem dinheiro da Rouanet é verdade, mas é meia verdade. A produção tentou o incentivo público e não conseguiu. O dinheiro que chegou veio do lado de um banqueiro. E em escala muito maior: os R$ 134 milhões prometidos por Vorcaro equivalem a mais de 15 vezes o valor pedido à Rouanet.

O dinheiro público ao redor da produtora

A produtora tem outro elo com o dinheiro público, revelado pelo Intercept em dezembro de 2025. O dono da empresa comanda organizações não governamentais (ONGs) ligadas a igrejas evangélicas.

Uma delas recebeu R$ 1,08 milhão em emendas de vereadores de São Paulo para um evento de jovens da Igreja Universal. Emenda é a parte do orçamento que o parlamentar indica para um destino específico. Outra ONG tem um contrato de R$ 108 milhões com a prefeitura paulistana para Wi-Fi.

O Intercept não mostrou dinheiro dessas ONGs indo para o filme. A ligação documentada é outra: o mesmo empresário circula entre o dinheiro de emendas, um contrato municipal milionário e um filme financiado por um banqueiro.

Por que os contratos importam

Contrato é o documento que diz quem pagou, quanto, por quê e com quais obrigações. No caso Dark Horse, é ele que permitiria ao público conferir se o dinheiro foi mesmo um patrocínio. E por que o pagamento foi feito a um fundo parado no exterior. Sem os papéis, resta a palavra do candidato, e a Lupa mostrou que ela não bate com os fatos.

A falta de documentos também pesa na investigação. Em julho de 2026, o ministro André Mendonça abriu inquérito no Supremo Tribunal Federal (STF) a pedido da Polícia Federal (PF). As suspeitas são de lavagem de dinheiro, evasão de divisas e corrupção, segundo a Agência Brasil.

Em 9 de outubro, a PF pediu ao Ministério da Justiça que buscasse ajuda dos Estados Unidos para rastrear o dinheiro, informou a CNN Brasil. Flávio é investigado, não réu.

O que diz Flávio Bolsonaro: em 13 de maio de 2026, ele confirmou ter buscado patrocínio privado para um filme privado. Negou ter oferecido qualquer contrapartida a Vorcaro e negou o uso de dinheiro público, segundo o Poder360.

A Lei de Acesso à Informação não alcança um contrato entre particulares. Mas quem pede o voto para presidir o país não é um particular qualquer. A dez dias do segundo turno, Flávio tem nas mãos o meio mais simples de desmentir a Lupa: publicar os contratos. Até que eles apareçam, vale o selo de falso dado pela checagem de agosto.

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