Lupa: é falso que Flávio já mostrou os contratos do Dark Horse
A Lupa classificou como falsa a afirmação de que contratos e dados do fundo já foram mostrados, e apontou falta de contexto na fala sobre a Lei Rouanet.

Flávio Bolsonaro disse, em entrevista ao Jornal Nacional, que os contratos do filme Dark Horse e os dados do fundo que recebeu o dinheiro já tinham sido mostrados. A Agência Lupa checou a frase, em agosto de 2026, e a classificou como falsa. Os documentos que explicariam o caminho do dinheiro não tinham sido apresentados.
O Dark Horse é um filme sobre Jair Bolsonaro. Segundo o Intercept Brasil, Flávio negociou com o banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, a promessa de US$ 24 milhões, cerca de R$ 134 milhões, para a produção. Pelo menos US$ 10,6 milhões, cerca de R$ 61 milhões, foram pagos entre fevereiro e maio de 2025.
O dinheiro foi para a Havengate, um fundo no Texas, nos Estados Unidos. O fundo é administrado por Paulo Calixto, advogado de Eduardo Bolsonaro, e estava parado. Foi registrado em 2020 para um projeto imobiliário que nunca obteve licenças, segundo o Intercept.
Na mesma checagem, a Lupa analisou outra frase do candidato: a de que o filme não usou dinheiro da Lei Rouanet. A agência classificou a fala como sem contexto. A produtora tinha pedido R$ 8,59 milhões à Rouanet, e o pedido foi recusado.
A Lei Rouanet é a lei federal de incentivo à cultura. Ela permite que empresas e pessoas abatam do Imposto de Renda o valor investido em projetos culturais aprovados. Na prática, é dinheiro público: imposto que o governo deixa de arrecadar.
Dizer que o filme não tem dinheiro da Rouanet é verdade, mas é meia verdade. A produção tentou o incentivo público e não conseguiu. O dinheiro que chegou veio do lado de um banqueiro. E em escala muito maior: os R$ 134 milhões prometidos por Vorcaro equivalem a mais de 15 vezes o valor pedido à Rouanet.
O dinheiro público ao redor da produtora
A produtora tem outro elo com o dinheiro público, revelado pelo Intercept em dezembro de 2025. O dono da empresa comanda organizações não governamentais (ONGs) ligadas a igrejas evangélicas.
Uma delas recebeu R$ 1,08 milhão em emendas de vereadores de São Paulo para um evento de jovens da Igreja Universal. Emenda é a parte do orçamento que o parlamentar indica para um destino específico. Outra ONG tem um contrato de R$ 108 milhões com a prefeitura paulistana para Wi-Fi.
O Intercept não mostrou dinheiro dessas ONGs indo para o filme. A ligação documentada é outra: o mesmo empresário circula entre o dinheiro de emendas, um contrato municipal milionário e um filme financiado por um banqueiro.
Por que os contratos importam
Contrato é o documento que diz quem pagou, quanto, por quê e com quais obrigações. No caso Dark Horse, é ele que permitiria ao público conferir se o dinheiro foi mesmo um patrocínio. E por que o pagamento foi feito a um fundo parado no exterior. Sem os papéis, resta a palavra do candidato, e a Lupa mostrou que ela não bate com os fatos.
A falta de documentos também pesa na investigação. Em julho de 2026, o ministro André Mendonça abriu inquérito no Supremo Tribunal Federal (STF) a pedido da Polícia Federal (PF). As suspeitas são de lavagem de dinheiro, evasão de divisas e corrupção, segundo a Agência Brasil.
Em 9 de outubro, a PF pediu ao Ministério da Justiça que buscasse ajuda dos Estados Unidos para rastrear o dinheiro, informou a CNN Brasil. Flávio é investigado, não réu.
O que diz Flávio Bolsonaro: em 13 de maio de 2026, ele confirmou ter buscado patrocínio privado para um filme privado. Negou ter oferecido qualquer contrapartida a Vorcaro e negou o uso de dinheiro público, segundo o Poder360.
A Lei de Acesso à Informação não alcança um contrato entre particulares. Mas quem pede o voto para presidir o país não é um particular qualquer. A dez dias do segundo turno, Flávio tem nas mãos o meio mais simples de desmentir a Lupa: publicar os contratos. Até que eles apareçam, vale o selo de falso dado pela checagem de agosto.
Fontes
- Ao vivo: checagem da entrevista de Flávio Bolsonaro ao Jornal Nacional — Lupa
- Áudio: Flávio negociou milhões com Vorcaro — Intercept Brasil
- Fundo Havengate abandonou projeto antes de receber milhões de Vorcaro para o Dark Horse — Intercept Brasil
- Dark Horse: evangélicos, filme sobre Bolsonaro e contrato de R$ 108 milhões — Intercept Brasil
- Mendonça incluiu Flávio Bolsonaro como investigado no caso Dark Horse — Agência Brasil
- PF aciona MJ por cooperação com EUA para rastrear dinheiro de Dark Horse — CNN Brasil
- Flávio confirma pedido de dinheiro a Vorcaro, mas diz que era privado — Poder360



