Emendas

CGU acha 2,7 mil vínculos entre parlamentares e entidades com emendas

Auditoria da CGU entregue ao STF analisou mais de 15 mil emendas, mas o órgão ressalta que um vínculo, sozinho, não configura irregularidade.

Topo do Edifício Darcy Ribeiro, em Brasília, com a sigla CGU e o nome Controladoria-Geral da União em letras azuis sobre a fachada branca.
A sede da Controladoria-Geral da União (CGU), no Edifício Darcy Ribeiro, em Brasília (imagem de arquivo).Foto: Ascom/CGU / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

A Controladoria-Geral da União (CGU) encontrou cerca de 2,7 mil vínculos entre parlamentares e entidades que receberam dinheiro de emendas. A auditoria analisou mais de 15 mil emendas de 2020 a 2025. A própria CGU faz uma ressalva: um vínculo, sozinho, não é irregularidade.

O relatório foi entregue ao Supremo Tribunal Federal (STF) pela Advocacia-Geral da União (AGU) no sábado, 3 de outubro, segundo O Fator. A análise atende a uma determinação do ministro Flávio Dino, relator da ação sobre a transparência das emendas, a ADPF 854. ADPF é a sigla de Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental, um tipo de ação do STF.

Emenda parlamentar é uma indicação de deputado ou senador para destinar parte do Orçamento federal a um município, a um estado ou a uma entidade. Parte desse dinheiro vai para organizações não governamentais (ONGs), entidades privadas sem fins lucrativos. O Fator contou 5.445 dessas entidades que receberam emendas no período.

Vínculo é uma ligação entre uma pessoa e uma entidade. Segundo reportagens sobre o relatório, pode ser familiar, profissional, societária ou cadastral. O Metrópoles informa que a CGU considerou ligações de até quatro camadas intermediárias, ou seja, conexões indiretas.

O que os números mostram

A tabela reúne os principais dados citados. Nenhum deles, sozinho, mostra desvio de dinheiro.

Principais números da auditoria sobre vínculos Contagens do relatório da CGU, de 2020 a 2025, salvo indicação

Indicador Número
Emendas analisadas mais de 15 mil
Vínculos entre parlamentares e entidades cerca de 2,7 mil
Assessores analisados cerca de 13 mil
Assessores com vínculo com entidade beneficiada mais de 5 mil
Empresas pagas com emendas a ONGs sem funcionário registrado (2025) 19.255 de 23.916

Fonte: Repórter Brasil/TV Brasil, Metrópoles e O Fator. Elaboração: redação.

A ligação pode ser direta. Segundo O Fator, em 149 casos o autor da emenda tinha vínculo com a entidade que a recebeu. Em outros 749, a entidade tinha ligação com um assessor do gabinete que indicou o recurso.

O Fator também cita outra reportagem sobre o mesmo relatório. Segundo ela, 1.003 dos 1.501 deputados e senadores com mandato no período têm algum vínculo com entidades beneficiadas. Isso dá quase dois em cada três parlamentares.

Por que a ressalva importa

A CGU afirma que a existência de vínculos não prova irregularidade. Também não prova que o parlamentar enviou o dinheiro, porque a entidade pode ter recebido verba de outro político. Cada caso, diz o órgão, precisa de análise individual.

O relatório também olhou para as empresas que recebem pagamentos das entidades. Segundo O Fator, 19.255 das 23.916 empresas pagas com emendas a ONGs em 2025 não tinham nenhum funcionário registrado. O e-Social é o sistema federal em que as empresas declaram seus empregados.

Esse dado não diz se o serviço foi prestado. Mostra apenas que, no registro, a empresa não tinha empregados. Por isso ele pede checagem, e não conclusão.

O que diz a CGU: Segundo o Metrópoles, o órgão afirma que “a mera existência de vínculos não caracteriza impropriedade ou irregularidade”. A redação não fez contato direto com a CGU para esta versão; a posição vem das reportagens que citam o relatório.

O que isso significa

Os números descrevem uma rede de ligações, não um quadro de desvios. As reportagens tratam de vínculos, não de processos judiciais. Para saber se houve irregularidade, é preciso examinar cada caso.

O relatório pede o aprofundamento de 76 vínculos entre políticos, assessores e fornecedores até dezembro, segundo O Fator. Até a publicação, não localizamos nova decisão de Dino sobre o tema nas últimas 48 horas. Quem quer acompanhar pode checar o autor e o beneficiário de cada emenda no Portal da Transparência.

Como fizemos: Usamos reportagens de 6 e 16 de outubro de 2026 que citam o relatório da CGU entregue ao STF, acessadas em 21 de outubro de 2026: O Fator, Repórter Brasil (TV Brasil), Metrópoles e Revista Oeste. Não localizamos o relatório completo no site da CGU, então os números são os das reportagens. Os percentuais são cálculos da redação: 19.255 em 23.916 dá 80,5%. As contagens divergem: O Fator fala em 2.777 vínculos, e as demais, em cerca de 2,7 mil. Não houve correção pela inflação, porque nenhum valor é comparado entre anos. Os dados não mostram se houve desvio.

Fontes