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Recusar o resultado sem prova não é argumento contra a urna

Boletim de urna, fiscais e dados abertos permitem conferir a eleição de 2026. Negar o resultado sem prova enfraquece as instituições que o garantem.

Este texto integra a Tribuna: uma posição de quem assina, apresentada com independência da cobertura e não necessariamente compartilhada pelo Jornal Tiradentes.

Pessoa fantasiada de urna eletrônica, com rosto sorridente e braços, ao lado de uma mulher de cabelos grisalhos que aplaude, em evento com banner do TSE e o número 30.
Mascote da urna eletrônica em evento dos 30 anos do equipamento, com banner do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).Foto: Alejandro Zambrana / Secom/TSE / Wikimedia Commons (domínio público)

Lula foi reeleito com 51,79% dos votos válidos, que excluem brancos e nulos. A diferença para Flávio Bolsonaro foi de 4.430.191 votos, segundo o resultado divulgado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Qualquer cidadão pode conferir esse resultado, seção por seção. Recusá-lo sem prova não é argumento. É um ataque à confiança que sustenta as eleições.

No domingo (25), depois da apuração, Flávio Bolsonaro disse que não reconhece o resultado e vai pedir a anulação da eleição, segundo a Rádio Senado. Ele aponta dois problemas. O primeiro é a prorrogação da votação ordenada pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Cristiano Zanin. O segundo é a suposta retirada de fiscais do PL, representantes do partido que acompanham a votação, da sala-cofre do TSE.

O resultado pode ser conferido por qualquer pessoa

Ao fim da votação, a urna imprime o boletim de urna, o papel com os votos de cada candidato naquela seção. Uma via fica afixada no local de votação, segundo a Agência Brasil. É o primeiro registro público do voto.

Antes da soma, o TSE confere os arquivos de cada seção. Eles são transmitidos por canais criptografados, e o tribunal verifica se foram gerados pela urna daquela seção e se têm a assinatura digital correspondente. Partidos e outras instituições fiscalizadoras podem acompanhar essas etapas.

Depois da totalização, que é a soma dos votos de todas as seções, os boletins usados na conta serão publicados no Portal de Dados Abertos, informou o TSE. Dados abertos são bases públicas que qualquer pessoa pode baixar e analisar.

Há ainda o Teste de Integridade das Urnas. Ele compara as escolhas marcadas à mão em cédulas de papel com o que a urna registrou. No domingo, o TSE disse que dois fiscais do PL acompanharam o teste, no subsolo do prédio, e a totalização. O caminho do voto deixa rastros em papel, em arquivo e em conferência pública. Quem alega fraude precisa apontar onde esses rastros não batem.

Os argumentos de Flávio, respondidos com fatos

A prorrogação merece crítica. Zanin decidiu sozinho, em uma reclamação, ação que pede ao STF que faça cumprir uma decisão anterior. A coligação Brasil Pronto Pra Mais alegou que três prefeituras baianas não ofereceram ônibus suficientes para eleitores. Zanin estendeu a votação até as 19h em todo o país.

Depois, ele esclareceu que a extensão valia só onde as seções ainda estavam abertas, já que o TSE informou que as urnas tinham sido fechadas às 17h. O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), disse que a decisão “não faz o menor sentido”. Ele afirmou que ela passou “por cima da autoridade” do TSE. O presidente do tribunal, Kassio Nunes Marques, reconheceu dificuldades operacionais e uma pausa na transmissão dos boletins, mas disse que o resultado final não mudou.

A campanha de Flávio também pediu prorrogação em alguns locais, por causa de chuvas e alagamentos, segundo a Gazeta do Povo. Discutir a decisão de Zanin é legítimo. A pergunta que importa é outra: a prorrogação mudou o vencedor?

A Gazeta do Povo cita uma estimativa de cerca de 34 mil votos registrados depois das 17h, sem dizer quem a fez. Mesmo que todos tivessem ido para Flávio, a diferença cairia para 4.396.191 votos. Para inverter o placar, pelo menos 2,2 milhões de votos teriam de trocar de lado. As reportagens consultadas não trazem prova de nada nessa escala.

Sobre os fiscais, o TSE foi direto: “A afirmação é falsa”. A Corte disse que a sala-cofre, onde ficam os servidores e o banco de dados do tribunal, não recebe visitas. Afirmou ainda que dois fiscais do PL estiveram no prédio, com registro de presença e filmagem na Sala de Totalização.

O que diz Flávio Bolsonaro: Ele não reconhece o resultado e vai pedir a anulação da eleição na Justiça. Para ele, a prorrogação criou tratamento desigual entre eleitores, e fiscais do PL foram retirados da sala-cofre, segundo a Rádio Senado. A redação não contatou a campanha para este texto; a posição vem da cobertura citada.

Anular uma eleição presidencial é um remédio grave. A Gazeta do Povo ouviu especialistas que consideram difícil consegui-lo. Seria preciso mostrar prejuízo concreto, capaz de superar a diferença de votos. A reportagem também aponta o impacto institucional e a complexidade de um novo segundo turno.

O Brasil tem urna que deixa rastro, boletim público e fiscalização em cada etapa. Quem tem prova deve levá-la à Justiça Eleitoral. Quem não tem deve reconhecer o resultado que qualquer cidadão pode conferir. A democracia se defende com fatos, não com a recusa das urnas.

Como fizemos: Usamos o resultado do segundo turno divulgado pelo TSE, citado pelo NDMais, e as reportagens e notas listadas em Fontes, acessadas em 26/10/2026. A conta de 4.396.191 votos subtrai a estimativa de 34 mil votos da diferença de 4.430.191. A de 2,2 milhões divide essa diferença por dois, porque cada voto trocado de lado reduz a distância em dois. Não tivemos acesso ao site do TSE nem aos boletins de cada seção, por isso o funcionamento da urna vem de reportagens e notas do próprio tribunal. A origem da estimativa de 34 mil votos não foi verificada.

Fontes