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A Bolsa não é placar de legitimidade de uma eleição

A bolsa caiu 13,88% após a eleição, e isso pesa no custo da dívida. Mas 5,7 milhões de CPFs não são o eleitorado: o mercado mede preço, não voto.

Este texto integra a Tribuna: uma posição de quem assina, apresentada com independência da cobertura e não necessariamente compartilhada pelo Jornal Tiradentes.

Letreiro dourado com a palavra BOVESPA sobre grade de ferro preta na fachada da Bolsa de Valores de São Paulo.
Letreiro BOVESPA na fachada da Bolsa de Valores de São Paulo, hoje administrada pela B3, em foto de junho de 2015.Foto: Wilfredor / Wikimedia Commons (CC0)

Tribuna: opinião. Este texto defende uma posição e não é reportagem neutra.

Na segunda-feira (26), o Ibovespa, principal índice das ações da bolsa paulista, fechou em queda de 13,88%, aos 176.608,23 pontos. Na sexta-feira (23), ele havia fechado em 205.082,56 pontos, segundo o InfoMoney. Às 9h57, a B3, empresa que administra a bolsa, acionou o circuit breaker, um freio automático que suspendeu as negociações por 30 minutos.

No câmbio, o dólar comercial, cotação usada nas trocas com o exterior, subiu 8,25%, para R$ 5,403, segundo o InfoMoney. A reação veio no primeiro pregão depois da eleição, vencida por Lula com 51,79% dos votos válidos, sem contar brancos e nulos, segundo a Agência Câmara. A tese deste texto é simples: a bolsa mostra preço, não quem tem razão nas urnas.

Quem a bolsa representa

A B3 contou 5,7 milhões de CPFs em renda variável, como ações, no segundo trimestre de 2026, segundo comunicado de 17 de setembro. CPF é o número de cadastro de cada pessoa física.

Em julho, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) registrou 158.745.463 eleitores aptos a votar. Ou seja, quem tem CPF na bolsa equivale a cerca de 3,6% do eleitorado, segundo cálculo da redação.

Quem negocia é ainda mais concentrado. Até 16 de abril, estrangeiros responderam por 61,2% dos negócios da bolsa. Investidores institucionais, como fundos e bancos, ficaram com 24,5%, e pessoas físicas, com 11%, segundo a B3 via Bora Investir.

Esses números medem quem negocia, não quem é dono das empresas. No voto, a regra é outra: cada eleitor tem um voto, sem depender de renda ou de patrimônio. Por isso, a bolsa não pode servir de termômetro do voto.

O que o mercado mede, e o que não mede

O argumento contrário tem força. Investidores exigem juros mais altos quando veem mais risco nas contas públicas. Para William Jackson, da Capital Economics, citado pelo InfoMoney, “a vitória surpreendente de Lula vai frustrar as esperanças de reformas que melhorariam as finanças públicas”.

O custo disso é real. O DI para janeiro de 2031, taxa de juros negociada entre bancos com vencimento naquele mês, fechou em 15,24%, com alta de 2,665 pontos percentuais, segundo o InfoMoney. Quando essa taxa sobe, o Tesouro Nacional paga mais para vender títulos da dívida, papéis comprados por investidores.

Com essa alta, cada R$ 100 bilhões de dívida nova nesse prazo custariam cerca de R$ 2,7 bilhões a mais por ano em juros. É uma conta da redação, simplificada, que deixa de fora a dívida já contratada. A dívida bruta do governo geral, o total devido pela União, estados, municípios e Previdência, chegou a 82,5% do Produto Interno Bruto (PIB) em julho, segundo o Banco Central.

Fundos de previdência e de investimento costumam ter ações na carteira. Por isso, uma queda forte chega também a quem nunca abriu conta na B3.

Mas essa leitura mede o preço do futuro das contas. Ela não mede se a apuração foi correta nem se o eleito tem direito ao mandato. Esses testes cabem à Justiça Eleitoral e ao TSE. Quedas de preço também podem se aprofundar em pânico, e ativos podem perder valor.

A disputa sobre o resultado já está nas instituições. Na noite de domingo (25), o senador Flávio Bolsonaro (PL) disse: “É impossível reconhecer o resultado dessa eleição no contexto em que essas coisas aconteceram”, segundo o InfoMoney. Esse é o debate democrático, e ele deve ser resolvido pelos canais legais, não pelo pregão.

Um pregão pode mostrar o custo de incertezas fiscais, e isso merece cobertura. Cada real pago em juros é um real a menos para saúde, educação ou obras. Usar a bolsa para dizer se uma eleição vale troca a urna pelo pregão, e isso enfraquece a democracia.

Ativos podem perder valor, e pânicos podem se aprofundar. Este texto não é recomendação de investimento.

O que diz a B3: Segundo o Bora Investir, site da própria B3, o circuit breaker “interrompe temporariamente as negociações, para proteger o mercado de grandes variações negativas”. Não localizamos declaração da B3 sobre o resultado da eleição.

Como fizemos: Usamos cotações do InfoMoney de 26/10/2026 (Ibovespa às 17h15, dólar às 17h05, DI às 18h, além do fechamento de sexta-feira, 23/10), a Agência Câmara (25/10/2026), o comunicado da B3 (17/09/2026), a B3 via Bora Investir (22/04/2026), o levantamento do TSE de julho de 2026, citado pelo Correio Braziliense, e o Banco Central, citado pelo SBT News. Acessos em 26/10/2026. Cálculos da redação: 5,7 milhões de CPFs divididos por 158,7 milhões de eleitores (cerca de 3,6%), a queda do Ibovespa recalculada a partir dos pontos de sexta e segunda, e a conta de R$ 2,7 bilhões por ano para cada R$ 100 bilhões de dívida nova, com a alta de 2,665 pontos percentuais. O percentual de Lula (51,79%) é o da Agência Câmara; uma reportagem do Bora Investir cita 50,7%, valor que não conseguimos confirmar. Os dados não mostram a fatia de cada grupo na posse das empresas.

Fontes