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Pânico derruba preços, mas ninguém acerta o fundo

Quedas fortes podem exagerar, mas 2008 e 2020 mostram que o fundo só aparece depois. Quem não pode perder não deveria estar na bolsa.

Este texto integra a Tribuna: uma posição de quem assina, apresentada com independência da cobertura e não necessariamente compartilhada pelo Jornal Tiradentes.

Torre de concreto e vidro da sede do Banco Central do Brasil, em Brasília, sob céu azul, em foto recortada na horizontal.
Sede do Banco Central do Brasil, em Brasília, em foto de 2010 recortada para o formato horizontal.Foto: Banco Central do Brasil / Wikimedia Commons (CC BY 2.0)

Tribuna: opinião. Este texto defende uma posição e não é reportagem neutra.

Na segunda-feira (26), o Ibovespa, principal índice das ações da bolsa paulista, fechou em queda de 13,88%, aos 176.608,23 pontos, segundo o InfoMoney. Às 9h57, a B3, empresa que administra a bolsa, acionou o circuit breaker. É um freio automático que suspende as negociações por 30 minutos.

Depois de quedas assim, surge sempre a mesma ideia: o pânico exagerou e o preço ficou baixo demais. Essa ideia pode estar certa. Mas ela deixa de fora o ponto mais importante: ninguém sabe onde está o fundo.

O que o histórico mostra

O histórico tem dois lados, e os dois precisam aparecer. Em 15 de outubro de 2008, o Ibovespa caiu 11,39% em um dia, a primeira da lista das dez maiores quedas diárias desde 2000, segundo a Economatica, citada pelo Suno. Em 22 de outubro, veio outra queda de cerca de 10%, também nessa lista.

O ano de 2008 terminou com o índice em 37.550 pontos, perda de 41,22%, segundo o Diario Financiero (DF). A queda não parou no primeiro grande tombo.

Em 2020, a bolsa acionou o circuit breaker seis vezes em março. O índice caiu 29,90% no mês, o pior desde agosto de 1998, segundo o Poder360. A mínima do ano veio em 23 de março, aos 63.569 pontos.

Depois do fundo, a recuperação foi forte. O índice fechou 2020 em 119.017 pontos, com alta de 2,92% no ano, e subiu 87,2% desde o mínimo, segundo o Poder360. Mas ninguém anunciou o dia 23 de março como fundo. Ele só ficou claro depois.

O argumento de longo prazo também tem base. O Global Investment Returns Yearbook 2026, feito pelos professores Elroy Dimson, Paul Marsh e Mike Staunton com a UBS, mostra que as ações renderam, em termos reais (já descontada a inflação), 6,6% ao ano entre 1900 e 2025. Os títulos de renda fixa renderam 1,6%, segundo a reportagem da WealthBriefing sobre o relatório. A mesma reportagem lembra que houve décadas de retornos fracos para muitos investidores.

Investir não é apostar

Ações têm preço que muda todos os dias. Isso é renda variável. Um investidor que pode esperar anos, e que tem outras aplicações para os imprevistos, aguenta uma queda que não lhe tira o chão. Quem vai precisar do dinheiro em poucos meses está em outra situação.

A diferença entre investir e apostar está nessa conta. O investidor espalha o risco entre ativos, aceita que pode perder e tem reserva de emergência. O apostador põe tudo num resultado que não controla. Em uma queda forte, quem não tem reserva é forçado a vender no pior momento.

O Bora Investir, que se apresenta como “site de notícias e educação financeira da B3”, publica conteúdo sobre esses temas. A Estratégia Nacional de Educação Financeira (Enef), instituída por decreto presidencial, tem o objetivo de “aumentar a capacidade do cidadão para realizar escolhas conscientes sobre a administração dos seus recursos”, segundo o Banco Central.

O que diz a CVM: A Comissão de Valores Mobiliários (CVM), que regula o mercado de capitais, afirma em página oficial que participará da 13ª Semana ENEF, em 2026, com palestras e material no Portal do Investidor.

Há também um ponto político. Segundo a B3, 5,7 milhões de CPFs tinham ações ou outros papéis de renda variável no segundo trimestre de 2026, ante 5,5 milhões em dezembro de 2025. CPF é o número de cadastro de cada pessoa física. É uma parcela pequena do país. Quando o pregão despenca, a fala pública trata essa parcela como se fosse a opinião de todo o Brasil. Não é.

Educação financeira é bem público. Ela serve para que o cidadão saiba onde o dinheiro está aplicado e o que pode perder, não para dizer quando o mercado vai subir. Ensinar a diferença entre investir e apostar protege quem não tem como esperar.

Ativos podem perder valor, e pânicos podem se aprofundar. Este texto não é recomendação de investimento.

Como fizemos: Usamos a cotação do Ibovespa do InfoMoney de 26/10/2026, acessada no mesmo dia, e dados de 2008 e 2020 do Suno (Economatica), do DF e do Poder360. Os percentuais de 2020 e o fechamento de 2020 vêm do Poder360. A taxa real de 6,6% ao ano é a que a reportagem da WealthBriefing atribui ao Yearbook de 2026, sem cálculo nosso. Não conferimos o relatório completo. Os dados de 2008 vêm de veículos de imprensa, não de série oficial da B3, e as fontes variam em casas decimais.

Fontes