Pânico derruba preços, mas ninguém acerta o fundo
Quedas fortes podem exagerar, mas 2008 e 2020 mostram que o fundo só aparece depois. Quem não pode perder não deveria estar na bolsa.
Este texto integra a Tribuna: uma posição de quem assina, apresentada com independência da cobertura e não necessariamente compartilhada pelo Jornal Tiradentes.

Tribuna: opinião. Este texto defende uma posição e não é reportagem neutra.
Na segunda-feira (26), o Ibovespa, principal índice das ações da bolsa paulista, fechou em queda de 13,88%, aos 176.608,23 pontos, segundo o InfoMoney. Às 9h57, a B3, empresa que administra a bolsa, acionou o circuit breaker. É um freio automático que suspende as negociações por 30 minutos.
Depois de quedas assim, surge sempre a mesma ideia: o pânico exagerou e o preço ficou baixo demais. Essa ideia pode estar certa. Mas ela deixa de fora o ponto mais importante: ninguém sabe onde está o fundo.
O que o histórico mostra
O histórico tem dois lados, e os dois precisam aparecer. Em 15 de outubro de 2008, o Ibovespa caiu 11,39% em um dia, a primeira da lista das dez maiores quedas diárias desde 2000, segundo a Economatica, citada pelo Suno. Em 22 de outubro, veio outra queda de cerca de 10%, também nessa lista.
O ano de 2008 terminou com o índice em 37.550 pontos, perda de 41,22%, segundo o Diario Financiero (DF). A queda não parou no primeiro grande tombo.
Em 2020, a bolsa acionou o circuit breaker seis vezes em março. O índice caiu 29,90% no mês, o pior desde agosto de 1998, segundo o Poder360. A mínima do ano veio em 23 de março, aos 63.569 pontos.
Depois do fundo, a recuperação foi forte. O índice fechou 2020 em 119.017 pontos, com alta de 2,92% no ano, e subiu 87,2% desde o mínimo, segundo o Poder360. Mas ninguém anunciou o dia 23 de março como fundo. Ele só ficou claro depois.
O argumento de longo prazo também tem base. O Global Investment Returns Yearbook 2026, feito pelos professores Elroy Dimson, Paul Marsh e Mike Staunton com a UBS, mostra que as ações renderam, em termos reais (já descontada a inflação), 6,6% ao ano entre 1900 e 2025. Os títulos de renda fixa renderam 1,6%, segundo a reportagem da WealthBriefing sobre o relatório. A mesma reportagem lembra que houve décadas de retornos fracos para muitos investidores.
Investir não é apostar
Ações têm preço que muda todos os dias. Isso é renda variável. Um investidor que pode esperar anos, e que tem outras aplicações para os imprevistos, aguenta uma queda que não lhe tira o chão. Quem vai precisar do dinheiro em poucos meses está em outra situação.
A diferença entre investir e apostar está nessa conta. O investidor espalha o risco entre ativos, aceita que pode perder e tem reserva de emergência. O apostador põe tudo num resultado que não controla. Em uma queda forte, quem não tem reserva é forçado a vender no pior momento.
O Bora Investir, que se apresenta como “site de notícias e educação financeira da B3”, publica conteúdo sobre esses temas. A Estratégia Nacional de Educação Financeira (Enef), instituída por decreto presidencial, tem o objetivo de “aumentar a capacidade do cidadão para realizar escolhas conscientes sobre a administração dos seus recursos”, segundo o Banco Central.
O que diz a CVM: A Comissão de Valores Mobiliários (CVM), que regula o mercado de capitais, afirma em página oficial que participará da 13ª Semana ENEF, em 2026, com palestras e material no Portal do Investidor.
Há também um ponto político. Segundo a B3, 5,7 milhões de CPFs tinham ações ou outros papéis de renda variável no segundo trimestre de 2026, ante 5,5 milhões em dezembro de 2025. CPF é o número de cadastro de cada pessoa física. É uma parcela pequena do país. Quando o pregão despenca, a fala pública trata essa parcela como se fosse a opinião de todo o Brasil. Não é.
Educação financeira é bem público. Ela serve para que o cidadão saiba onde o dinheiro está aplicado e o que pode perder, não para dizer quando o mercado vai subir. Ensinar a diferença entre investir e apostar protege quem não tem como esperar.
Ativos podem perder valor, e pânicos podem se aprofundar. Este texto não é recomendação de investimento.
Como fizemos: Usamos a cotação do Ibovespa do InfoMoney de 26/10/2026, acessada no mesmo dia, e dados de 2008 e 2020 do Suno (Economatica), do DF e do Poder360. Os percentuais de 2020 e o fechamento de 2020 vêm do Poder360. A taxa real de 6,6% ao ano é a que a reportagem da WealthBriefing atribui ao Yearbook de 2026, sem cálculo nosso. Não conferimos o relatório completo. Os dados de 2008 vêm de veículos de imprensa, não de série oficial da B3, e as fontes variam em casas decimais.
Fontes
- Ibovespa hoje: bolsa de valores ao vivo, 26/10/2026 — InfoMoney (acesso em 26/10/2026)
- Ibovespa: confira as dez maiores quedas do índice desde 2000 — Suno
- Bolsa de São Paulo perdió durante el año un 41,22% — Diario Financiero (DF)
- Bolsa despenca 29,9% em março e tem pior trimestre da história — Poder360
- Ibovespa termina o ano aos 119.017 pontos, com alta de 2,92% em 2020 — Poder360
- Equities Have Beaten Bonds Since 1900 – UBS Yearbook — WealthBriefing
- ETFs ganham 223 mil investidores em um ano e alcançam 862 mil CPFs na B3 — B3 (17/09/2026)
- Bora Investir — site de notícias e educação financeira da B3
- Estratégia Nacional de Educação Financeira (Enef) — Banco Central do Brasil
- Semana ENEF 2026 — CVM
- Edifício “Sede” do Banco Central do Brasil em Brasília — Wikimedia Commons (CC BY 2.0)


