TribunaTribuna · análise assinada

Juros da dívida somam R$ 1 trilhão, mas o debate mira nas emendas

Em 2025, os juros da dívida somaram R$ 1,007 trilhão, cerca de 32 vezes as emendas pagas, e a fiscalização deveria olhar para os dois.

Este texto integra a Tribuna: uma posição de quem assina, apresentada com independência da cobertura e não necessariamente compartilhada pelo Jornal Tiradentes.

O Congresso Nacional à noite, com as duas torres, a cúpula branca e a cúpula invertida iluminada de verde, refletidas no espelho d'água.
O Congresso Nacional, em Brasília, iluminado à noite, em abril de 2020 (foto de arquivo).Foto: Roque de Sá / Agência Senado / Wikimedia Commons (CC BY 2.0)

Em 2025, as despesas com juros da dívida pública somaram R$ 1,007 trilhão. Esse valor equivale a 7,91% do Produto Interno Bruto (PIB), a soma de tudo o que o país produz em um ano. Os dados são do Banco Central, divulgados em 30 de janeiro de 2026.

No mesmo ano, o governo federal pagou R$ 31,54 bilhões em emendas parlamentares, segundo o Siop (Sistema Integrado de Planejamento e Orçamento). A conta de juros é cerca de 32 vezes maior. Nossa tese é que a fiscalização do dinheiro público precisa olhar para as duas partes.

Emendas parlamentares são recursos que deputados e senadores indicam para obras e serviços em suas bases. Elas têm autor identificável, por isso viram assunto de fiscalização. Os juros são outra coisa: é o que o Tesouro Nacional paga a quem empresta ao governo, comprando títulos da dívida pública.

O custo da dívida acompanha a taxa básica de juros, a Selic. Quem define a Selic é o Comitê de Política Monetária (Copom), do Banco Central, que se reúne a cada 45 dias, segundo a Agência Brasil. Essa decisão não passa pelo Congresso.

O que os números mostram

A tabela junta os números verificados. Juros e emendas são de 2025. Saúde e educação são da Lei Orçamentária Anual (LOA) de 2026, porque não localizamos o total pago dessas áreas em 2025 em fonte oficial aberta.

Juros, emendas, saúde e educação no Orçamento federal Valores em reais, por ano indicado

Item Valor Ano Fonte
Juros da dívida pública R$ 1,007 tri (7,91% do PIB) 2025 Banco Central
Emendas parlamentares pagas R$ 31,54 bi 2025 Siop
Saúde, previsto na LOA R$ 271,3 bi 2026 Jornal de Brasília
Educação, previsto na LOA R$ 233,7 bi 2026 Jornal de Brasília

Fontes: Banco Central, via Itatiaia; Siop, via Diário de Pernambuco; LOA 2026, via Jornal de Brasília. Elaboração: redação.

A comparação entre 2025 e 2026 não é de mesmo ano, por isso serve como ordem de grandeza. Ainda assim, os juros de 2025 ficam perto do dobro do que a LOA prevê para saúde e educação juntas em 2026, cerca de R$ 505 bilhões.

Em agosto de 2025, a Consultoria de Orçamentos do Senado mostrou um corte forte nas emendas. Das R$ 81,4 bilhões previstas, só R$ 46,4 bilhões deveriam ser liberados, uma redução de 43%. Na mesma nota, a restrição de gastos chegou a R$ 14,6 bilhões em saúde e R$ 11 bilhões em educação, em empenhos do Poder Executivo em geral.

Quando o governo aperta o gasto, as emendas aparecem nas manchetes. Na nossa leitura, a conta de juros fica fora dessa disputa, mesmo custando mais de R$ 1 trilhão por ano.

O argumento contrário

Quem defende a responsabilidade fiscal tem um argumento sério. Uma dívida grande exige juros altos para convencer quem compra títulos. Se o mercado desconfia, o custo de financiar o país sobe, e esse custo chega ao crédito, às empresas e às famílias.

O Tesouro Nacional afirma que os indicadores da dívida estão dentro dos limites. Em entrevista ao Correio da Manhã, em fevereiro de 2026, o secretário Rogério Ceron disse que isso ocorreu após a revisão do plano de financiamento. A reportagem atribui o resultado também à boa demanda do mercado.

O argumento é válido, mas não encerra a discussão. Mostrar que a dívida é sustentável não exige esconder quanto se paga de juros, para quem e com que taxa. Credibilidade também depende de transparência.

Reconhecemos um limite no nosso raciocínio. Os dados aqui não mostram quanto seria possível reduzir os juros sem risco para o país. Essa estimativa exige modelos próprios de economistas e do Banco Central, que este texto não faz.

O que diz o Tesouro Nacional: Em entrevista ao Correio da Manhã, publicada em 9 de fevereiro de 2026, o secretário Rogério Ceron afirmou que os indicadores da dívida ficaram dentro dos limites. Não consultamos o Tesouro para este texto; a posição vem da entrevista publicada.

O que isso significa

Os números não dizem que as emendas são pequenas ou boas. Dizem que a conta de juros é muito maior e menos discutida. Uma fiscalização que olha só para as emendas deixa sem exame uma conta de mais de R$ 1 trilhão.

Defendemos que o controle do gasto público inclua os juros: quanto sai, para quem, com que taxa e o que deixa de ser feito por causa disso. Quem fiscaliza emenda deveria exigir a mesma transparência sobre a dívida. O Siga Brasil, do Senado, já permite acompanhar a execução das emendas, e o mesmo cuidado deveria valer para a conta de juros.

Como fizemos: Usamos a conta de juros do Banco Central de 2025, citada pelo Itatiaia em 30/01/2026; as emendas pagas em 2025, segundo o Siop, citadas pelo Diário de Pernambuco em 02/01/2026; e as previsões da LOA 2026, citadas pelo Jornal de Brasília em 15/01/2026. Consultamos as fontes em 27/10/2026. A razão de 32 vezes é nossa conta: R$ 1,007 tri dividido por R$ 31,54 bi. As bases não são iguais: a série do Banco Central mede o setor público consolidado, não só a União, e as emendas são só da União. A comparação com a LOA cruza anos, é previsão e não é corrigida pela inflação. Não localizamos o total pago em saúde e educação em 2025 em fonte oficial aberta. Algumas reportagens citam R$ 1,5 trilhão de juros; não usamos esse número, porque ele não confere com a série do Banco Central.

Fontes