Juros da dívida somam R$ 1 trilhão, mas o debate mira nas emendas
Em 2025, os juros da dívida somaram R$ 1,007 trilhão, cerca de 32 vezes as emendas pagas, e a fiscalização deveria olhar para os dois.
Este texto integra a Tribuna: uma posição de quem assina, apresentada com independência da cobertura e não necessariamente compartilhada pelo Jornal Tiradentes.

Em 2025, as despesas com juros da dívida pública somaram R$ 1,007 trilhão. Esse valor equivale a 7,91% do Produto Interno Bruto (PIB), a soma de tudo o que o país produz em um ano. Os dados são do Banco Central, divulgados em 30 de janeiro de 2026.
No mesmo ano, o governo federal pagou R$ 31,54 bilhões em emendas parlamentares, segundo o Siop (Sistema Integrado de Planejamento e Orçamento). A conta de juros é cerca de 32 vezes maior. Nossa tese é que a fiscalização do dinheiro público precisa olhar para as duas partes.
Emendas parlamentares são recursos que deputados e senadores indicam para obras e serviços em suas bases. Elas têm autor identificável, por isso viram assunto de fiscalização. Os juros são outra coisa: é o que o Tesouro Nacional paga a quem empresta ao governo, comprando títulos da dívida pública.
O custo da dívida acompanha a taxa básica de juros, a Selic. Quem define a Selic é o Comitê de Política Monetária (Copom), do Banco Central, que se reúne a cada 45 dias, segundo a Agência Brasil. Essa decisão não passa pelo Congresso.
O que os números mostram
A tabela junta os números verificados. Juros e emendas são de 2025. Saúde e educação são da Lei Orçamentária Anual (LOA) de 2026, porque não localizamos o total pago dessas áreas em 2025 em fonte oficial aberta.
Juros, emendas, saúde e educação no Orçamento federal Valores em reais, por ano indicado
| Item | Valor | Ano | Fonte |
|---|---|---|---|
| Juros da dívida pública | R$ 1,007 tri (7,91% do PIB) | 2025 | Banco Central |
| Emendas parlamentares pagas | R$ 31,54 bi | 2025 | Siop |
| Saúde, previsto na LOA | R$ 271,3 bi | 2026 | Jornal de Brasília |
| Educação, previsto na LOA | R$ 233,7 bi | 2026 | Jornal de Brasília |
Fontes: Banco Central, via Itatiaia; Siop, via Diário de Pernambuco; LOA 2026, via Jornal de Brasília. Elaboração: redação.
A comparação entre 2025 e 2026 não é de mesmo ano, por isso serve como ordem de grandeza. Ainda assim, os juros de 2025 ficam perto do dobro do que a LOA prevê para saúde e educação juntas em 2026, cerca de R$ 505 bilhões.
Em agosto de 2025, a Consultoria de Orçamentos do Senado mostrou um corte forte nas emendas. Das R$ 81,4 bilhões previstas, só R$ 46,4 bilhões deveriam ser liberados, uma redução de 43%. Na mesma nota, a restrição de gastos chegou a R$ 14,6 bilhões em saúde e R$ 11 bilhões em educação, em empenhos do Poder Executivo em geral.
Quando o governo aperta o gasto, as emendas aparecem nas manchetes. Na nossa leitura, a conta de juros fica fora dessa disputa, mesmo custando mais de R$ 1 trilhão por ano.
O argumento contrário
Quem defende a responsabilidade fiscal tem um argumento sério. Uma dívida grande exige juros altos para convencer quem compra títulos. Se o mercado desconfia, o custo de financiar o país sobe, e esse custo chega ao crédito, às empresas e às famílias.
O Tesouro Nacional afirma que os indicadores da dívida estão dentro dos limites. Em entrevista ao Correio da Manhã, em fevereiro de 2026, o secretário Rogério Ceron disse que isso ocorreu após a revisão do plano de financiamento. A reportagem atribui o resultado também à boa demanda do mercado.
O argumento é válido, mas não encerra a discussão. Mostrar que a dívida é sustentável não exige esconder quanto se paga de juros, para quem e com que taxa. Credibilidade também depende de transparência.
Reconhecemos um limite no nosso raciocínio. Os dados aqui não mostram quanto seria possível reduzir os juros sem risco para o país. Essa estimativa exige modelos próprios de economistas e do Banco Central, que este texto não faz.
O que diz o Tesouro Nacional: Em entrevista ao Correio da Manhã, publicada em 9 de fevereiro de 2026, o secretário Rogério Ceron afirmou que os indicadores da dívida ficaram dentro dos limites. Não consultamos o Tesouro para este texto; a posição vem da entrevista publicada.
O que isso significa
Os números não dizem que as emendas são pequenas ou boas. Dizem que a conta de juros é muito maior e menos discutida. Uma fiscalização que olha só para as emendas deixa sem exame uma conta de mais de R$ 1 trilhão.
Defendemos que o controle do gasto público inclua os juros: quanto sai, para quem, com que taxa e o que deixa de ser feito por causa disso. Quem fiscaliza emenda deveria exigir a mesma transparência sobre a dívida. O Siga Brasil, do Senado, já permite acompanhar a execução das emendas, e o mesmo cuidado deveria valer para a conta de juros.
Como fizemos: Usamos a conta de juros do Banco Central de 2025, citada pelo Itatiaia em 30/01/2026; as emendas pagas em 2025, segundo o Siop, citadas pelo Diário de Pernambuco em 02/01/2026; e as previsões da LOA 2026, citadas pelo Jornal de Brasília em 15/01/2026. Consultamos as fontes em 27/10/2026. A razão de 32 vezes é nossa conta: R$ 1,007 tri dividido por R$ 31,54 bi. As bases não são iguais: a série do Banco Central mede o setor público consolidado, não só a União, e as emendas são só da União. A comparação com a LOA cruza anos, é previsão e não é corrigida pela inflação. Não localizamos o total pago em saúde e educação em 2025 em fonte oficial aberta. Algumas reportagens citam R$ 1,5 trilhão de juros; não usamos esse número, porque ele não confere com a série do Banco Central.
Fontes
- Brasil gasta mais de R$ 1 trilhão com juros e fecha 2025 com rombo bilionário — Itatiaia, citando o Banco Central (30/01/2026) (acesso em 27/10/2026)
- Juro da dívida bate recorde e déficit nominal supera R$ 1 trilhão — Poder360 (31/10/2025) (acesso em 27/10/2026)
- Governo Lula registra pagamento recorde de R$ 31,5 bilhões em emendas em 2025 — Diário de Pernambuco (02/01/2026) (acesso em 27/10/2026)
- Lula sanciona Orçamento de 2026 e veta quase R$ 400 milhões em emendas — Jornal de Brasília (15/01/2026) (acesso em 27/10/2026)
- Poder Executivo limita pagamento de emendas parlamentares, aponta Conorf — Agência Senado (08/08/2025) (acesso em 27/10/2026)
- Pagamento de juros da dívida pública passou de R$ 1 trilhão — Correio da Manhã (09/02/2026) (acesso em 27/10/2026)
- Copom inicia nesta terça reunião para definir taxa básica de juros — O Povo, com Agência Brasil (03/08/2026) (acesso em 27/10/2026)
- Siga Brasil — Senado Federal, acompanhamento do Orçamento da União (acesso em 27/10/2026)



