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Subsídio na conta de luz precisa de critério social

CDE confirmada em R$ 52,66 bilhões exige proteção à tarifa social e transparência sobre benefícios distribuídos entre consumidores e setores.

Este texto integra a Tribuna: uma posição de quem assina, apresentada com independência da cobertura e não necessariamente compartilhada pelo Jornal Tiradentes.

Moradora de assentamento no Acre ao lado de liquidificador em casa atendida pelo Luz para Todos.
Moradora do assentamento Nova Promissão, no Acre, após atendimento do Luz para Todos, em maio de 2016.Foto: Sérgio Vale / Agência De Notícias Do Acre / Wikimedia Commons (CC BY 2.0)

A Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) confirmou orçamento de R$ 52,66 bilhões para a Conta de Desenvolvimento Energético (CDE). Desse total, R$ 47,8 bilhões virão das tarifas. A decisão exige um debate sobre quem paga e quem recebe.

A CDE não é uma rubrica abstrata. Ela financia Tarifa Social, Luz para Todos e incentivos a fontes renováveis. O consumidor transfere recursos por meio da conta mensal, inclusive quando tem pouca renda.

Defender energia acessível exige defender os subsídios com função social evidente. Também exige avaliar os benefícios setoriais com o mesmo rigor. O tamanho do encargo não autoriza tratar todo subsídio como despesa ruim nem como intocável.

Proteção social não deve ser bode expiatório

A prévia da Aneel destinava R$ 10,4 bilhões à Tarifa Social em 2026. O valor era 33,3% maior que em 2025. O aumento decorre de mudança nas regras do benefício para famílias de baixa renda.

A mesma prévia reservava R$ 6,9 bilhões para micro e minigeração distribuída. Esse subsídio cresceu 87,4% sobre 2025. A expansão exige avaliar quem consegue instalar equipamentos e quem permanece apenas pagando a tarifa.

Tarifa Social supera subsídio à geração distribuída na prévia Valores por finalidade apresentados pela Aneel para 2026

Componente Valor Situação
Orçamento total da CDE R$ 52,66 bilhões Confirmado em outubro
Tarifa Social R$ 10,4 bilhões Prévia da consulta
Micro e minigeração distribuída R$ 6,9 bilhões Prévia da consulta
CDE-Uso paga pelos consumidores R$ 47,8 bilhões Confirmado em outubro

Fonte: Aneel. Valores nominais; finalidades detalhadas na prévia orçamentária.

Os dois programas são diferentes. A Tarifa Social reduz diretamente a conta de quem atende aos critérios. A geração distribuída incentiva produção própria e pode apoiar transição energética. Questionar desenho e distribuição não significa rejeitar energia renovável.

O encargo precisa prestar contas por real

A CDE-Uso cresceu 15,4%, mais que os 7% do orçamento total. A conta atinge consumidores de todas as regiões. Na prévia, a agência estimou efeitos distintos por localidade e nível de tensão.

Para Norte e Nordeste, a estimativa era aumento de 0,71% na baixa tensão. Para Sul, Sudeste e Centro-Oeste, havia previsão de redução de 0,81%. Esses números mostram que o efeito não é uniforme. Também não medem a renda de cada consumidor.

O problema não está apenas no total. Está na dificuldade de separar finalidade, beneficiário e resultado. A Aneel aprova o orçamento, mas os encargos são criados por leis aprovadas pelo Congresso. A fiscalização precisa alcançar as duas instâncias.

A consulta pública recebeu 94 sugestões de 34 agentes. Participação é bem-vinda, mas o número de contribuições não substitui resposta pública. A agência deveria mostrar como cada manifestação alterou ou não o cálculo.

A prestação de contas deve informar quanto cada programa recebeu e quantas pessoas atendeu. Também precisa mostrar o impacto na tarifa por faixa de renda. Sem isso, a população vê o encargo na conta, mas não consegue julgar sua justiça.

O que diz a Aneel: A agência informa que a CDE financia políticas definidas pelo Congresso e que coube ao órgão aprovar o orçamento após consulta. A Aneel não tem competência para criar ou extinguir esses encargos, que dependem de lei.

Transição justa começa por quem menos pode pagar

O Brasil precisa ampliar energia limpa sem transformar a conta em instrumento de regressão social. O caminho é proteger a Tarifa Social e o Luz para Todos. Ao mesmo tempo, incentivos econômicos devem ter prazo, critério e avaliação.

A tarifa de quem vive com pouco não pode financiar benefícios opacos. Mas cortar programas sociais no nome de eficiência só aumentaria a desigualdade. O debate correto é sobre desenho e resultado, não sobre a existência de solidariedade tarifária.

A confirmação do orçamento torna o acompanhamento ainda mais necessário. Congresso e Aneel devem publicar dados comparáveis por finalidade. O cidadão precisa saber quanto paga, quem recebe e qual serviço é entregue.

Como fizemos: Usamos a decisão da Aneel de 27/10/2026 e a prévia da Consulta Pública nº 44/2025. Não tratamos os valores detalhados da prévia como confirmação final. Calculamos nenhum impacto doméstico, pois ele depende de consumo, distribuidora e enquadramento.

Fontes