Dinheiro do SUS não pode virar negócio de quem não presta contas
Operação contra suspeita de desvio na saúde e um contrato de insulina sob análise do TCU mostram por que cada real do SUS precisa de rastro público.
Este é um artigo de opinião. Ele reflete as ideias do autor, não necessariamente as do Jornal Tiradentes.

Opinião. Este texto defende uma posição da redação do Jornal Tiradentes. Os fatos e números foram conferidos nas fontes listadas ao final.
Em 8 de outubro de 2026, a Polícia Federal (PF) e a Controladoria-Geral da União (CGU) cumpriram mandados no Ceará e na Paraíba. Neste mês, o Tribunal de Contas da União (TCU) também passou a analisar um contrato de R$ 42,9 milhões para compra de insulina pelo Ministério da Saúde. São casos diferentes, mas mostram a mesma falha: o dinheiro do SUS circula com rastro insuficiente.
O Sistema Único de Saúde (SUS) é uma conquista do povo brasileiro. A Constituição de 1988 define a saúde como direito de todos e dever do Estado. Para quem não tem plano privado, é o SUS que atende. Por isso, cada real que o sustenta precisa estar à vista de quem paga a conta.
Dois casos, uma mesma falha
A Operação Coaptação apura desvios de verba federal da saúde. Segundo o Diário do Nordeste, a entidade investigada é a Cooperativa de Trabalho de Atendimento Pré e Hospitalar (Coaph). De acordo com as investigações, a principal empresa investigada recebeu, entre 2007 e 2025, mais de R$ 1 bilhão em recursos públicos federais. Ninguém foi condenado até agora, e os investigados têm direito à defesa.
Segundo a PF, citada pelo Diário do Nordeste, mais de 80 empresas são apontadas como fictícias. Elas emitiam notas fiscais por serviços que, segundo a apuração, não foram prestados. A Justiça decretou cinco prisões preventivas, medida cautelar que não equivale a condenação.
Um número pede cuidado. O Diário do Nordeste cita um total de R$ 1,8 bilhão em contratos da cooperativa com o governo cearense e prefeituras, com base em dados da CGU citados na decisão judicial. Contrato não é desvio, e o próprio jornal faz essa ressalva. O padrão é antigo e conhecido: contratos públicos, notas sem serviço real e saques em dinheiro vivo. A investigação começou justamente por movimentações financeiras suspeitas, incluindo saques em espécie. Cada etapa deixa papel. O problema aparece quando ninguém confere esse papel a tempo.
O caso da insulina: o problema é de controle
Este caso toca o governo federal, e não há como tratá-lo como ataque externo. Segundo a Gazeta do Povo, o TCU analisa, sob sigilo, uma representação sobre a compra de insulina humana no valor de R$ 42,9 milhões. A denúncia é anônima e se baseia em registros internos do Ministério da Saúde.
Segundo a reportagem, o preço de referência subiu 52% em nove dias, depois que uma tentativa anterior de compra fracassou. A fabricante Biomm foi a única empresa a participar do novo pregão. O relator é o ministro Augusto Nardes, e o TCU ainda não decidiu nada.
A Biomm tem outra camada. Segundo o Poder360, a empresa fechou pelo menos R$ 303,65 milhões em contratos com o governo em 2025. Um fundo ligado ao Banco Master, do banqueiro Daniel Vorcaro, tem 25,86% do controle. A empresa diz que não tem acionista controlador e que sua governança não permite interferência direta de acionistas individuais. Mensagens do celular de Vorcaro, citadas pela Gazeta do Povo, mencionam o ministro da Saúde, Alexandre Padilha. A reportagem não aponta, por si só, irregularidade.
O que diz o Ministério da Saúde: A pasta afirma que a parceria com a Biomm começou em 2013, anos antes da entrada do fundo ligado a Vorcaro, e que as compras seguiram a Lei de Licitações. Segundo a Gazeta do Povo, ela nega influência externa no processo.
Os fatos ainda não permitem concluir nada contra a empresa ou contra o governo. Mas também impedem o contribuinte de conferir. O processo corre em sigilo, e o cidadão só fica sabendo do caso pela imprensa. Quem paga a insulina merece ver, ao menos, o preço de referência, o edital e a justificativa do novo pregão.
Essa transparência é simples de exigir. Todo contrato e aditivo deve ser publicado no Portal Nacional de Contratações Públicas (PNCP), a plataforma federal de compras públicas, como manda a Lei 14.133/2021. O Portal da Transparência e os relatórios da CGU devem mostrar quem recebeu, quanto e com qual entrega. Dados que batem entre si são a melhor defesa do SUS.
O SUS é patrimônio nacional, e defendê-lo passa pela conferência. Nenhum dos dois casos tem condenação ou decisão final. São apurações em andamento, e a última palavra cabe à Justiça e ao TCU. A pergunta que fica não tem cor partidária: onde está o rastro de cada real? Enquanto a resposta estiver em sigilo ou em documentos difíceis de achar, o dinheiro da saúde corre o risco de virar negócio de quem não presta contas.
Como fizemos: Usamos a Gazeta do Povo (23/10/2026, sobre o TCU; 22 e 23/10/2026, sobre as mensagens de Vorcaro), o Poder360 (28/01/2026, sobre contratos e participação acionária), o Diário do Nordeste (8 e 9/10/2026) e O Povo (9/10/2026), sobre a Operação Coaptação. Não localizamos a nota oficial da PF nem da CGU, e não encontramos a cifra de R$ 1,5 bilhão atribuída à CGU. O processo do TCU está sob sigilo, e não tivemos acesso aos autos. Acessos em 23 de outubro de 2026.
Fontes
- TCU investiga compra de insulina pelo Ministério da Saúde em contrato milionário — Gazeta do Povo (23/10/2026)
- Investigação apura ligação de Vorcaro com membros do governo Lula na venda de insulina ao SUS — Gazeta do Povo (22/10/2026, atualizada em 23/10/2026)
- Empresa de Vorcaro fechou R$ 303,65 mi em contratos com governo Lula — Poder360 (28/01/2026)
- Operação no Ceará apura desvio de R$ 1 bilhão em recursos federais destinados à saúde — Diário do Nordeste (08/10/2026)
- Esquema milionário de desvio na saúde do CE tinha ‘bunker’ de dinheiro e mais de 80 empresas, diz PF — Diário do Nordeste (09/10/2026)
- PF e CGU fazem operação contra suspeita de desvio de verba da saúde no Ceará e na Paraíba — O Povo (09/10/2026)
- Portal Nacional de Contratações Públicas (PNCP) — Governo Federal (acesso em 23/10/2026)
- Constituição da República Federativa do Brasil de 1988, art. 196 (texto oficial no Planalto)



