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Fraude no defeso exige controle, não retirada de direitos

Operação no Maranhão deve apurar responsáveis sem transformar pescadores artesanais em suspeitos coletivos nem enfraquecer a proteção social.

Este texto integra a Tribuna: uma posição de quem assina, apresentada com independência da cobertura e não necessariamente compartilhada pelo Jornal Tiradentes.

Senador Paulo Paim fala ao lado de representantes de pescadores durante audiência pública no Senado.
Audiência pública sobre pescadores, Seguro Defeso e previdência social no Senado, em agosto de 2016.Foto: Geraldo Magela / Agência Senado / Wikimedia Commons (CC BY 2.0)

A Operação Indefeso bloqueou R$ 400 milhões nesta quarta-feira (28). A Polícia Federal (PF) investiga uma fraude que poderia causar R$ 10 bilhões de prejuízo em cinco anos. A cifra potencial exige apuração rigorosa, não atalhos contra direitos.

O Seguro Defeso paga um salário mínimo mensal ao pescador artesanal durante a parada obrigatória da pesca. A regra protege a renda do trabalhador e a reprodução das espécies. Quem fraudava essa proteção deve responder na forma da lei.

A investigação aponta inserção de dados falsos, documentos fraudulentos e possível participação de agentes públicos. Ainda não há condenação. Também não há base para tratar os pescadores que recebem legalmente como integrantes de um esquema.

O direito é parte da política de preservação

O defeso impede a pesca em determinado período e território. Sem rendimento alternativo, o trabalhador enfrentaria pressão para descumprir a pausa. O benefício combina justiça social e preservação ambiental.

O Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) exige inscrição no Registro Geral da Atividade Pesqueira por pelo menos um ano. Também cobra comprovação da atividade e residência em município abrangido. O pescador não pode ter outra fonte de renda além da pesca, conforme as regras.

Proteção social e controle devem avançar juntos Regras e dados oficiais do Seguro Defeso em outubro de 2026

Elemento Regra ou dado Finalidade
Valor mensal Um salário mínimo Renda durante o defeso
Inscrição profissional Ao menos um ano de RGP Comprovar vínculo com a pesca
Comprovação de atividade Notas fiscais ou contribuição previdenciária Verificar exercício profissional
Pagamentos de julho a setembro R$ 1,041 bilhão a 179.089 beneficiários Atender direitos reconhecidos pelo INSS
Mandados da Operação Indefeso 35 Apurar concessões suspeitas no Maranhão

Fonte: MTE, INSS e Polícia Federal.

Os pagamentos citados pelo Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) são de períodos anteriores a 2026. Mostram a escala da política legítima. Não devem ser somados à estimativa da PF, que trata de possível dano em outra dimensão temporal.

Controle precisa atingir o elo público da fraude

A PF afirma que dois agentes públicos foram afastados cautelarmente. Esse ponto merece atenção. A inserção de dados falsos em sistemas governamentais não é apenas falha de quem pede o benefício. Pode envolver quem administra cadastros e autorizações.

Por isso, a resposta correta é fortalecer trilhas de auditoria e responsabilização. Cada alteração cadastral precisa registrar autor, data e justificativa. O cruzamento de dados deve ocorrer antes do pagamento, com canal de defesa para quem tiver informação incorreta.

O MTE já prevê registro biométrico, Cadastro Único e dados georreferenciados. Também permite revisão online e atendimento presencial quando necessário. A fiscalização será mais justa se esses instrumentos vierem acompanhados de prazo e contraditório.

Há um risco quando o combate à fraude vira barreira burocrática indiscriminada. O trabalhador sem documentação padronizada pode perder o direito que a lei reconhece. O erro cadastral precisa ser corrigido, não convertido automaticamente em suspeita criminal.

Também há risco na posição oposta: fingir que controle fere a categoria. A estimativa de R$ 10 bilhões ainda precisa de metodologia pública e confirmação. Mas indícios de participação interna exigem investigação até o fim, inclusive sobre eventuais gestores.

O que diz o Ministério do Trabalho: Na página oficial, o MTE afirma que as verificações buscam garantir o direito de quem cumpre os requisitos. O objetivo é assegurar o benefício a quem vive da pesca e evitar fraudes. O órgão oferece revisão online e postos presenciais.

O Brasil protege mais quando fiscaliza melhor

Defender o Seguro Defeso é defender trabalhadores do interior e a soberania sobre recursos naturais. A mesma convicção exige cobrar a devolução de desvios comprovados. Direito social e dinheiro público bem cuidado não são adversários.

A operação deve apresentar o número de benefícios suspeitos, o cálculo do dano e a responsabilidade de cada investigado. O Ministério Público decidirá depois se há denúncia. Até lá, precisão jurídica e transparência são indispensáveis.

O desfecho correto não é um programa menor nem um cadastro imune a críticas. É um benefício que chegue ao pescador legítimo, com controles capazes de alcançar quem usa o Estado para obter vantagem indevida.

Como fizemos: Consultamos a nota da PF de 28/10/2026, as regras publicadas pelo MTE e o balanço do INSS de 9/10/2026. Separamos pagamentos reconhecidos de prejuízo potencial e não calculamos média por beneficiário. A análise editorial defende controle com preservação do direito.

Fontes