Investigações

As explicações de Flávio para o próprio extrato, versão por versão

Contas pagas com dinheiro próprio, um assessor que agia sozinho, sigilos sem transferências: as versões de Flávio mudaram, e no debate ele não abriu o sigilo.

Flávio Bolsonaro, de terno e gravata, olha para baixo, cercado de microfones de emissoras durante entrevista.
O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) dá entrevista no Senado, em 30 de abril de 2026 (imagem de arquivo).Foto: Andressa Anholete / Agência Senado / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

No debate da Band, em 18 de outubro, Lula desafiou Flávio Bolsonaro a abrir seus sigilos bancário e telefônico. O candidato do PL recusou e respondeu com acusações à família do adversário, relatou o ND+. Naquela noite, as buscas por “Flávio rachadinha” passaram de 50 mil, segundo o Poder360.

A recusa fecha uma sequência de explicações que mudaram ao longo de seis anos. Todas tratam do mesmo dinheiro: salários de assessores do gabinete de Flávio na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj). É dinheiro público, pago pelo contribuinte fluminense.

O caso começou com o extrato de outra pessoa, o assessor Fabrício Queiroz. Depois, a investigação chegou ao extrato do próprio Flávio: a quebra do sigilo bancário dele foi autorizada e, mais tarde, anulada pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ), segundo o Migalhas. Desde então, Flávio deu ao menos três versões para o que os números mostravam.

As duas primeiras versões

Em junho de 2020, o Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MP-RJ) obteve imagens de câmeras de um banco. Nelas, segundo o Poder360, Queiroz paga em dinheiro vivo boletos da escola das filhas de Flávio.

Em 5 de agosto de 2020, Flávio deu sua explicação ao Congresso em Foco. Admitiu que Queiroz pagava algumas de suas contas pessoais, entre elas cerca de R$ 100 mil do plano de saúde da família. O dinheiro, disse, era dele mesmo.

A versão confirma o fato e troca apenas a origem do dinheiro. Ela não explica por que as contas pessoais de um político passavam pelas mãos de um assessor pago com dinheiro público.

Também em agosto de 2020, Flávio acrescentou outra explicação. Segundo ele, Queiroz recolhia salários de assessores para contratar trabalhadores informais, sem seu conhecimento. A tese passou a ser a de um funcionário que agia por conta própria.

Os números apresentados pelo MP-RJ em dezembro de 2019 dão a dimensão do que essa versão precisa explicar. Segundo a promotoria, Queiroz recebeu R$ 2,06 milhões em 483 depósitos de 13 assessores, 69% deles em dinheiro vivo. E sacou cerca de R$ 2,9 milhões em espécie, informou A Gazeta. Esses dados saíram do processo depois, com a anulação das quebras de sigilo.

A terceira versão: sigilos e perseguição

Em fevereiro de 2021, o STJ anulou as quebras de sigilo bancário e fiscal do caso, por considerá-las mal justificadas, segundo o Migalhas. A defesa passou a se apoiar nessa decisão: as provas teriam sido obtidas de forma ilegal, e o caso seria perseguição política.

Em maio de 2022, o Tribunal de Justiça do Rio rejeitou a denúncia por se apoiar em provas anuladas, sem julgar o mérito, segundo a InfoMoney. O relator anotou que a conduta descrita poderia configurar crimes. Flávio foi denunciado e nunca julgado.

Em abril de 2026, ele levou a explicação à pré-campanha. Disse ao Correio Braziliense que mais de 30 assessores tiveram os sigilos abertos sem que aparecesse qualquer transferência para ele.

O argumento tem um problema de lógica. Se os extratos mostram que nada chegou a ele, abri-los de novo, de forma voluntária, seria a melhor defesa possível. Foi exatamente isso que ele recusou fazer no debate, diante dos eleitores.

Abrir o próprio sigilo não depende de juiz. Basta o titular entregar os extratos ou autorizar o banco a fornecê-los. É um gesto que está, desde 2018, inteiramente nas mãos de Flávio.

O que diz Flávio Bolsonaro: ele nega a existência de esquema, afirma que Queiroz agia sozinho e classifica o caso como perseguição política, com provas obtidas de forma ilegal. Em abril de 2026, disse ao Correio Braziliense que os sigilos de mais de 30 assessores não mostraram transferências para ele e que o caso é político.

Seis anos, três versões e nenhum julgamento. O caso caiu por vício de forma, e por isso a dúvida sobre o mérito ficou de pé. A explicação que faltou nos tribunais poderia vir do próprio extrato do candidato, aberto por vontade dele.

A uma semana do segundo turno, Flávio preferiu mantê-lo fechado. Para quem pede o comando do Orçamento da União, transparência sobre o próprio dinheiro não é favor ao adversário. É o mínimo que o contribuinte pode exigir.

Fontes