Do Coaf ao STF: a linha do tempo da rachadinha de Flávio
Do alerta de R$ 1,2 milhão do Coaf, em 2018, à decisão de Gilmar Mendes, em 2025: os sete anos do caso em que Flávio Bolsonaro foi denunciado e nunca julgado.

O caso da rachadinha de Flávio Bolsonaro começou com um número: cerca de R$ 1,2 milhão em movimentações atípicas na conta de Fabrício Queiroz entre 2016 e 2017. O alerta partiu do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), a unidade de inteligência financeira do país, em dezembro de 2018, conforme noticiou a Metrópoles. Queiroz era assessor do gabinete de Flávio na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj).
Rachadinha é o nome dado ao esquema em que assessores devolvem parte do salário ao político que os nomeou. Salário de assessor é dinheiro público: sai da folha de um gabinete. O relatório do Coaf registrava também depósitos de outros assessores na conta de Queiroz — e foi esse alerta que levou os promotores a pedir as quebras de sigilo que revelaram os números de dezembro de 2019.
Segundo o Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MP-RJ), Queiroz recebeu R$ 2,06 milhões em 483 depósitos feitos por 13 assessores do gabinete. Do total, 69% entraram em dinheiro vivo, e os saques somaram cerca de R$ 2,9 milhões em espécie. A promotoria alegou ainda que parte do dinheiro teria sido lavada em apartamentos em Copacabana e na loja Kopenhagen.
O dinheiro diante das câmeras
Em junho de 2020, o caso saiu dos extratos e ganhou imagem. O MP-RJ obteve vídeo de câmeras de segurança de um banco em que Queiroz paga, em dinheiro, os boletos da escola das filhas de Flávio, segundo o Poder360. No mesmo mês, Queiroz foi preso em Atibaia, no interior de São Paulo, em uma propriedade de Frederick Wassef, então advogado de Flávio no caso, conforme a CNN Brasil.
Em 5 de agosto de 2020, Flávio admitiu que Queiroz pagava algumas de suas contas pessoais — entre elas, cerca de R$ 100 mil do plano de saúde da família. O dinheiro, afirmou, era dele, segundo o Congresso em Foco. Em outubro e novembro de 2020, o MP-RJ denunciou 17 pessoas, entre elas Flávio e Queiroz. Os crimes apontados: peculato (desvio de dinheiro público), lavagem de dinheiro, apropriação indébita e organização criminosa.
Sete anos sem um julgamento
Aí começou a queda das provas. Em 23 de fevereiro de 2021, a Quinta Turma do Superior Tribunal de Justiça (STJ) anulou, por 4 votos a 1, as quebras de sigilo bancário e fiscal do caso. Caiu junto o compartilhamento dos dados do Coaf.
Os pedidos, concluiu a turma, eram mal justificados. Quebra de sigilo é a ordem judicial que libera os dados de um investigado; sem ela bem fundamentada, a prova não entra.
Em 30 de novembro de 2021, a Segunda Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) manteve, por 3 a 1, o direito de Flávio de ser julgado por tribunal superior. Na mesma decisão, anulou 4 dos 5 relatórios do Coaf que embasavam a denúncia. Sobrou apenas o primeiro: o alerta de 2018, dos R$ 1,2 milhão.
Em 16 de maio de 2022, o Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJ-RJ) rejeitou a denúncia inteira, porque ela se apoiava em provas anuladas. O relator deixou anotado que a conduta descrita poderia configurar crimes. O tribunal não disse que os fatos eram falsos — disse que as provas não podiam ser usadas.
Em 26 de fevereiro de 2025, o ministro Gilmar Mendes, do STF, negou os dois últimos recursos da promotoria e esgotou a via judicial daquele processo. E deixou registrado o ponto decisivo: as anulações não impedem uma denúncia nova, construída sobre provas válidas. Essa denúncia nova, até hoje, não veio.
Em abril de 2026, Flávio disse ao Correio Braziliense que abordaria o caso de frente na pré-campanha. Ele culpou Queiroz, afirmou que mais de 30 assessores tiveram os sigilos abertos sem que aparecesse transferência para ele e chamou o caso de político.
O que diz Flávio Bolsonaro: ele nega a existência de esquema, diz que Queiroz agia sozinho e classifica o caso como perseguição política com provas obtidas de forma ilegal. Em agosto de 2020, afirmou que Queiroz recolhia salários de assessores para contratar trabalhadores informais sem seu conhecimento (Congresso em Foco). Em abril de 2026, repetiu ao Correio Braziliense que não houve transferências para ele e que o caso é político.
Fechada a linha, o saldo é este: um alerta de inteligência financeira, um vídeo de banco, uma admissão em entrevista, 17 denunciados — e nenhum julgamento do mérito. O que atravessou os sete anos sem ser anulado foi o primeiro relatório do Coaf. O que não houve, em nenhum tribunal, foi uma sentença sobre os fatos.
A dez dias do segundo turno, o eleitor que paga a folha de cada gabinete decide com esse registro na mesa. O candidato do PL pede o comando do Orçamento da União com um caso interrompido por forma — nunca encerrado com veredito. Anulado não é inocentado; também não é condenado. É, precisamente, nunca julgado.
Fontes
- Fabrício Queiroz fez saques de R$ 661 mil em 18 meses, segundo Coaf — Metrópoles
- Queiroz recebeu R$ 2 milhões em depósitos de 13 indicados por Flávio, diz MP — A Gazeta
- MP-RJ obteve imagens de Queiroz pagando boletos de Flávio Bolsonaro — Poder360
- MP do Rio denuncia 17 investigados por lavagem de dinheiro e peculato — Agência Brasil
- STJ anula quebra de sigilo bancário de Flávio Bolsonaro — Migalhas
- STF anula 4 relatórios do Coaf que miravam Flávio no caso das rachadinhas — Poder360
- TJ do Rio arquiva denúncia do MP contra Flávio Bolsonaro em caso das “rachadinhas” — InfoMoney
- Gilmar nega pedido para reabrir ação contra Flávio por “rachadinha” — Poder360



