Gastos públicos

Dólar alto ajuda o agro exportador e encarece insumos importados

Com o dólar perto de R$ 5,40 após a eleição, exportadores recebem mais reais, mas fertilizantes e diesel pesam no custo do campo.

Colheitadeira amarela recolhe soja seca em uma lavoura em Mato Grosso, com poeira no ar e outra máquina ao fundo.
Colheitadeira em lavoura de soja em Rondonópolis (MT), em foto de março de 2009.Foto: Roosevelt Pinheiro / Agência Brasil / Wikimedia Commons (CC BY 3.0 BR)

Na segunda-feira (26), o dólar comercial fechou em alta de 8,21%, a R$ 5,4027, segundo a Exame. A CNN Brasil registrou R$ 5,406 e alta de 8,36%. Foi o maior ganho diário da moeda desde 1999, segundo a Exame.

O movimento veio um dia depois da eleição. Com 99,99% das urnas apuradas, Lula (PT) tinha 51,79% dos votos, contra 48,21% de Flávio Bolsonaro (PL), segundo o InfoMoney. Na Bolsa, o Ibovespa caiu 13,88%, aos 176.608,23 pontos. Foi a maior queda percentual desde março de 2020, segundo a Exame.

Para o agro, o câmbio tem dois lados. Quem vende em dólar recebe mais reais por cada carga. Quem compra insumos importados, ou tem dívida atrelada ao dólar, paga mais.

As exportações já cresciam. De janeiro a setembro, o Brasil vendeu US$ 284,654 bilhões, alta de 10,4%, segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), via InfoMoney. Em setembro, a agropecuária exportou US$ 7 bilhões, alta de 4,8%, segundo a Agência Brasil. Isso equivale a cerca de 20% das exportações do mês, cálculo da redação.

Quem vende em dólar

Quem exporta converte a receita em reais, e cada venda rende mais moeda nacional. Segundo a Exame, o consultor Fábio Murad, da Wiser Asset, vê alguma compensação para exportadores, que recebem em dólar.

Quem compra insumos

Os preços lá fora caíram no mesmo dia. O contrato de novembro da soja na Bolsa de Chicago recuou quase 20 centavos, a US$ 12,376 por bushel (unidade americana de cerca de 27 quilos), por volta das 13h30, segundo o InfoMoney. O açúcar bruto caiu mais de 6%, e o café arábica, mais de 2%, segundo a Forbes Agro.

Uma cotação menor em dólar não significa, sozinha, receita menor em reais. O resultado depende do câmbio que se mantiver, do prêmio no porto e do frete.

O que diz Jack Scoville, analista da The Price Futures Group, em Chicago: “Certamente a eleição foi uma surpresa.” Segundo ele, “a magnitude do movimento nos preços da soja decorre disso”, conforme a Forbes Agro.

Do lado dos custos, o fertilizante pesa mais. Cerca de 85% dos fertilizantes usados no país vêm do exterior, segundo o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), citado pelo Portal do Agronegócio. Em agosto, o preço médio do importado chegou a US$ 403,20 por tonelada, 12,8% acima de um ano antes, segundo o MDIC.

O diesel também entra na conta. O Goldman Sachs trabalha com um cenário de alta de até 50% da Petrobras, se a diferença de subsídios entre produtores e importadores acabar. O banco diz que esse não é o cenário mais provável. No caso-base, a Petrobras mantém os preços até o fim do ano, segundo a Agronews.

Os alimentos já pesavam. Em setembro, o grupo alimentação e bebidas subiu 0,83%, segundo o IBGE, via Brasil61. Esse dado é anterior à reação do dólar. O efeito cambial sobre a comida, se houver, tende a aparecer depois.

O dinheiro público no meio

O governo já atua nessa conta. Três medidas provisórias (MPs) abriram R$ 18,49 bilhões ao Fundo de Garantia à Exportação (FGE) em 2026, como mostramos em 24 de outubro.

No crédito rural, o Plano Safra 2026/27 soma R$ 610,3 bilhões. Desse total, R$ 525,1 bilhões vão à agricultura empresarial e R$ 85,2 bilhões à familiar, segundo a CNA Brasil. Para os demais produtores, fora da agricultura familiar, a taxa do custeio, dinheiro para as despesas da safra, caiu de 14% para 12,5% ao ano. O volume cresce 2,6% em termos nominais, abaixo do IPCA de 4,58% em 12 meses até setembro, pela conta da redação.

O que vem agora

Os dados não mostram como esses recursos se dividem entre pequenos e grandes produtores. O saldo depende do dólar nas próximas semanas, dos preços da soja e do café e do custo dos insumos.

Esta reportagem não é recomendação de investimento. Ativos podem perder valor, e pânicos no mercado podem se aprofundar.

Como fizemos: Usamos reportagens da Exame e da CNN Brasil, de 26/10/2026, sobre o fechamento do dólar e do Ibovespa, que trazem valores diferentes entre si. Também usamos o InfoMoney (eleição e cotações), a Forbes Agro, dados do MDIC divulgados em 06/10/2026, o IBGE (IPCA de setembro, divulgado em 14/10/2026, via Brasil61) e a CNA Brasil. Acessos em 26/10/2026. Cálculos da redação: a agropecuária equivale a cerca de 20% das exportações de setembro (US$ 7 bilhões sobre US$ 34,42 bilhões) e a comparação entre o aumento nominal de 2,6% do Plano Safra e o IPCA de 4,58% em 12 meses. Os valores não são corrigidos pela inflação. As cotações são referências de pregão, não preços pagos ao produtor. Não localizamos, até a publicação, manifestação do Ministério da Agricultura ou do Ministério da Fazenda sobre o efeito do câmbio nos custos do agro.

Fontes