Gastos públicos

Três MPs abrem R$ 18,5 bilhões ao FGE para financiar exportadores

Três medidas provisórias de 2026 abriram R$ 18,5 bilhões para exportadores, com dinheiro do próprio superávit do Fundo de Garantia à Exportação.

Fachada de azulejo branco do Ministério da Fazenda, em Brasília, com o nome do ministério em letras metálicas e uma faixa verde pendurada no prédio durante um protesto.
Edifício do Ministério da Fazenda, em Brasília, em foto de arquivo de março de 2017, durante protesto de movimentos sociais.Foto: Marcelo Camargo / Agência Brasil / Wikimedia Commons (CC BY 2.0)

Na quarta-feira (21), o Diário Oficial da União publicou a Medida Provisória (MP) 1.397. Ela abre R$ 6,49 bilhões em crédito extraordinário para financiar exportadores atingidos pelas sobretaxas dos Estados Unidos. É a terceira medida desse tipo em 2026 para o mesmo fundo. Somadas, as três chegam a R$ 18,49 bilhões.

O fundo é o Fundo de Garantia à Exportação (FGE), vinculado ao Ministério da Fazenda. Ele financia exportadores e protege as vendas contra riscos comerciais e políticos. Os créditos financiam o Plano Brasil Soberano, lançado em 2025 para reagir às tarifas americanas, segundo a Agência Senado. O crédito extraordinário é aberto por medida provisória e, pela Constituição, serve a despesas urgentes e imprevisíveis (art. 167, § 3º).

Três aberturas em seis meses

A primeira dessas MPs saiu em 29 de abril, com R$ 5 bilhões. A segunda, publicada em 25 de agosto, somou R$ 7 bilhões. A de outubro acrescenta R$ 6,49 bilhões. A tabela mostra cada uma.

Crédito extraordinário ao FGE chega a R$ 18,49 bilhões em 2026 Valores em R$ bilhões, por data de publicação no Diário Oficial

Medida Publicação Valor
MP 1.352 29/04/2026 5,00
MP 1.387 25/08/2026 7,00
MP 1.397 21/10/2026 6,49
Total — 18,49

Fonte: Agência Senado, A Crítica e Agência Brasil. Elaboração: redação.

O total equivale a cerca de 62% do superávit financeiro do FGE apurado em 2025, de aproximadamente R$ 29,7 bilhões, segundo a Agência Senado. Superávit financeiro é o saldo que sobra depois de descontadas as despesas financeiras, explica a Agrolink. As reportagens não dizem quanto desse saldo ainda resta no fundo.

De onde sai o dinheiro

A Agência Senado informa que a MP de abril usa esse superávit. A Agrolink diz o mesmo sobre a MP de outubro. Sobre a MP de agosto, a reportagem consultada não informa a fonte dos recursos.

Cada MP tem força de lei desde a publicação, mas precisa ser analisada pelo Congresso em até 120 dias, segundo a Agrolink.

Urgência ou rotina?

Segundo a Agência Senado, o governo diz que a MP de abril cumpre os requisitos constitucionais de urgência, relevância e imprevisibilidade. A medida de agosto cita a incerteza econômica internacional, a alta do petróleo e novas tarifas dos Estados Unidos, segundo A Crítica. A de outubro aponta a demanda por crédito no BNDES, que, segundo a Agrolink, supera o dobro do limite de R$ 7 bilhões.

As reportagens consultadas não avaliam se essas justificativas se sustentam. Ainda assim, o padrão merece atenção. O mesmo programa recebe aberturas sucessivas desde abril. Vale perguntar se uma necessidade que volta três vezes em seis meses ainda é imprevisível. A resposta cabe ao Congresso, que analisa cada MP.

O que diz o governo: Segundo a Agência Senado, a abertura do crédito de abril atende, na avaliação do governo, aos requisitos constitucionais de urgência, relevância e imprevisibilidade. A justificativa da MP de outubro, citada pela Agrolink, aponta a demanda por crédito no BNDES.

O que isso significa

Apoiar exportadores diante de tarifas é uma escolha de política de desenvolvimento, e as próprias medidas a apresentam assim. Os números, porém, mostram o tamanho da conta: R$ 18,49 bilhões em seis meses, abertos com o superávit de um fundo público. As reportagens não informam quais empresas recebem os recursos nem quanto sobra no fundo. Sem esses dados, fica difícil conferir o uso do dinheiro. Cada MP depende de votação do Congresso para virar lei definitiva, segundo a Agrolink.

Como fizemos: Usamos a Agência Brasil (21/10/2026), a Agência Senado (29/04/2026), a Agrolink (21/10/2026) e o jornal A Crítica (25/08 e 21/10/2026). Os valores vêm dessas reportagens; não conseguimos acessar o texto das MPs no site do Planalto. A soma (R$ 18,49 bilhões) e a comparação com o superávit de 2025 (cerca de 62%) são cálculos da redação, arredondados. Todos os valores são de 2026, sem correção pela inflação. Acessos em 24 de outubro de 2026.

Fontes