Tribunais de contas

TCE-RJ suspende pagamentos de contrato que chegou a R$ 5 milhões

O TCE-RJ mandou suspender pagamentos de contrato de licenças educativas do governo Cláudio Castro; o tribunal estima R$ 3,7 milhões pagos indevidamente.

Fachada lateral do Palácio Guanabara, sede do governo do Estado do Rio de Janeiro, prédio amarelo com cúpulas cinzentas sob céu azul.
Palácio Guanabara, sede do governo do Estado do Rio de Janeiro; a imagem é ilustrativa e não mostra o contrato nem o tribunal.Foto: Rzpguimaraes / Wikimedia Commons (CC BY-SA 3.0)

O Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro (TCE-RJ) mandou suspender os pagamentos de um contrato do governo estadual que chegou a R$ 5 milhões. A decisão, segundo o blog do jornalista Ralfe Reis, é de 12 de junho de 2026. Reportagens de 19 de outubro, do Diário do Rio e de O Globo, detalharam o caso.

A medida é um freio. Ela impede que mais dinheiro saia enquanto o tribunal analisa a suspeita. O que já foi pago continua sob apuração.

Como o contrato cresceu

O contrato 14/2023 foi assinado pela Secretaria Extraordinária de Representação do Governo do Rio em Brasília. Ele trata de licenças de jogos digitais educativos, com treinamento e suporte técnico. A apuração começou com uma representação da deputada estadual Renata Souza (PSOL), segundo o Diário do Rio.

O valor inicial era de cerca de R$ 2,5 milhões. Dois aditivos, ou acréscimos ao contrato, elevaram a conta para R$ 5 milhões, segundo a ação do Ministério Público do Rio (MPRJ). A empresa, a Triunfo Consultoria Educacional, foi criada em 2022, pouco mais de um ano antes do contrato.

Três sinais de alerta

O primeiro é o uso. Das 6.268 licenças compradas, 4.968 não foram distribuídas, segundo a auditoria técnica do tribunal, citada por O Globo. Só 35 tiveram uso registrado.

O segundo é a escolha da empresa. A secretaria aderiu a uma ata de registro de preços de um consórcio de Minas Gerais, em vez de fazer licitação própria. A pesquisa de preços contou com apenas dois fornecedores independentes. Um dos sócios, Vanderlan Ribeiro Vieira, foi subsecretário da Casa Civil fluminense até 2021, segundo o Diário do Rio.

O terceiro é o preço. A área técnica falou em “indícios de superfaturamento”. Segundo O Globo, uma estimativa do tribunal aponta que cerca de R$ 3,7 milhões foram pagos indevidamente depois dos aditivos.

O que diz a Secretaria Extraordinária de Representação do Governo do Rio em Brasília: a gestão atual, que assumiu em março de 2026, diz que não fez novos pagamentos à empresa desde abril. O secretário Gustavo Alves Pinto Teixeira afirmou, em nota a O Globo, que “a Secretaria optou pela não renovação do ajuste e comunicou à empresa o interesse na rescisão do contrato”. Fontes: Diário do Rio; O Globo, via InfoMoney.

Sobrepreço ou superfaturamento

Em linguagem simples, sobrepreço é cobrar mais caro do que o mercado pagaria pelo mesmo item. Superfaturamento é o prejuízo que aparece quando esse excesso vira pagamento. Por isso, a medida de urgência trava o pagamento antes de haver prova final do dano.

O cálculo muda conforme o contrato. Segundo o Zênite, que analisa decisões do Tribunal de Contas da União (TCU), em serviços acrescidos por aditivo a conta compara só os itens acima do preço de referência.

A manchete do Diário do Rio fala em superfaturamento. No corpo da reportagem, porém, aparecem suspeitas de direcionamento e de pesquisa de preços com apenas dois fornecedores.

O que está em aberto

A sindicância administrativa do governo, uma apuração interna, foi concluída em setembro. Os documentos foram enviados à Controladoria-Geral do Estado (CGE) e ao Ministério Público, segundo o Diário do Rio.

Em 14 de setembro, o plenário virtual do TCE-RJ aceitou a representação por unanimidade. O relator é o conselheiro Christiano Lacerda Ghuerren, segundo O Globo.

Na Justiça, o MPRJ move uma ação de improbidade administrativa, processo que apura atos de má gestão de agentes públicos. Em setembro, a 13ª Vara da Fazenda Pública da Capital determinou a indisponibilidade de até R$ 5 milhões em bens de André Moura, que comandava a secretaria, e de outros envolvidos. Indisponibilidade significa que os bens não podem ser vendidos. Não há condenação nas reportagens consultadas. Moura afirmou, em nota a O Globo, que “todos os atos administrativos foram conduzidos com observância da legislação vigente”.

As reportagens não trazem decisão final sobre o mérito. Os pagamentos estão suspensos, mas a pergunta central segue sem resposta pública: as 6.268 licenças eram necessárias? O TCE-RJ pediu esclarecimentos sobre os critérios da contratação, segundo o Diário do Rio.

Como fizemos: Usamos as reportagens do Diário do Rio e de O Globo (republicada pelo InfoMoney), ambas de 19/10/2026; o blog do jornalista Ralfe Reis, de 12/06/2026; e o Diário do Centro do Mundo. Não consultamos a decisão nem o processo do TCE-RJ. O índice de uso é cálculo nosso: 35 licenças sobre 6.268 compradas, cerca de 0,6%. O Diário do Rio associa esse índice às licenças disponibilizadas, mas 35 sobre 1.300 daria 2,7%, por isso usamos o total comprado. Acessos em 23/10/2026.

Fontes