Gastos públicos

Em 2002, o risco-país atingiu o pico antes do dólar e da Bolsa

Em 2002, risco-país, dólar e Ibovespa tiveram picos e fundos em datas diferentes. Os dados mostram a sequência, não a causa.

Dois operadores de costas, sentados diante de um painel vermelho e verde com cotações de ações, na sala de pregão da Bolsa de Valores de São Paulo.
Operadores diante do painel de cotações da Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa), em foto de abril de 2007.Foto: Rafael Matsunaga / Flickr / Wikimedia Commons (CC BY 2.0)

Em 27 de setembro de 2002, o risco-país do Brasil chegou a 2.443 pontos, o maior nível do ano. O dólar só atingiu seu valor máximo do ano, R$ 3,9552, em 22 de outubro. A Bolsa caiu até 8.371 pontos em 16 de outubro. Os três marcos não aconteceram no mesmo dia.

Essa sequência importa para quem lê 2002 como um bloco só. Mostra que o pânico teve etapas, e que o risco e o dólar não subiram juntos o tempo todo. Este texto mostra os números e separa o que eles sustentam do que não sustentam.

Risco-país é o custo extra que o país paga para tomar dinheiro no exterior. Ele é medido em pontos-base, e 100 pontos-base equivalem a 1 ponto percentual de juros a mais. A série usada aqui é o EMBI+ Brasil, calculado pelo banco JP Morgan e disponível no Ipeadata, banco de dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). O Ibovespa, por sua vez, é o principal índice da Bolsa paulista: reúne as ações mais negociadas do país.

Durante a campanha, a imprensa passou a falar em “risco Lula”. A expressão descrevia a ideia de que a economia falharia se Lula vencesse, segundo a Wikipédia em inglês. Em 22 de junho, a campanha divulgou a Carta ao Povo Brasileiro, em que o candidato prometia não mudar a política econômica se eleito.

Entre 21 e 24 de junho, o risco-país caiu de 1.706 para 1.524 pontos, cerca de 11%. Como a carta saiu num sábado, a primeira reação aparece na segunda-feira, 24. A coincidência não prova que a carta causou a queda, e em 31 de julho o indicador já estava de volta a 2.307 pontos.

Três picos em datas diferentes

Pela taxa de venda do Banco Central, o dólar subiu de R$ 2,3066, em 2 de janeiro de 2002, para R$ 3,9552, em 22 de outubro. A alta foi de 71,5% em menos de dez meses. Em 31 de dezembro, a moeda estava em R$ 3,5333, 10,7% abaixo do pico.

A Bolsa teve trajetória diferente. Segundo o Yahoo Finance, o Ibovespa fechou 2001 em 13.578 pontos e fechou 2002 em 11.268, queda de 17%. Entre 16 e 25 de outubro, antes da votação do segundo turno, o índice já tinha subido 19,6%, de 8.371 para 10.015 pontos.

Do fundo de 16 de outubro ao fim de 2002, a alta foi de 34,6%. Em 2003, o Ibovespa subiu 97%, para 22.236 pontos. Em 2004, avançou mais 17,8%, para 26.196 pontos. Os valores batem com outras fontes: a B3, empresa que administra a Bolsa paulista, registra 20.183,97 pontos em 28 de novembro de 2003, e a Agência Estado informou alta de 17,81% em 2004.

O risco-país seguiu a mesma direção, em outra escala. Entre o pico de 27 de setembro e 31 de dezembro de 2002, caiu 41%, para 1.445 pontos. No fim de 2003, estava em 463 pontos, 81% abaixo do pico.

Coincidência não é causa

Outros fatores ocorreram no mesmo período e podem explicar parte do movimento. O primeiro é a crise argentina. Segundo a Agência Brasil, o governo argentino liberou o câmbio em dezembro de 2001, em meio à crise do país. Essa crise pode ter elevado o risco de toda a região, e os dados desta análise não separam esse efeito.

O segundo é o acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI). Em 6 de setembro de 2002, o fundo aprovou um crédito de reserva de US$ 30,4 bilhões para o Brasil, liberado em parcelas, a primeira de cerca de US$ 3 bilhões. O comunicado citava a preocupação com as políticas econômicas antes das eleições. Também dizia que o apoio dos principais candidatos ajudou a melhorar o sentimento do mercado.

O terceiro é o mercado mundial. As bolsas dos Estados Unidos chegaram ao fundo em 9 de outubro de 2002, segundo a Wikipédia em inglês. A recuperação das bolsas depois desse fundo também pode ter ajudado o Ibovespa, e os dados não permitem separar essa parte do ganho brasileiro.

O que diz o FMI: No comunicado de 6 de setembro de 2002, o fundo disse que o acordo buscava “reduce current market uncertainties and volatility” (reduzir incertezas e volatilidade do mercado) e uma “transição ordenada” para o novo governo. O texto está no site do FMI, comunicado 02/40.

Em 2002, o mercado temia a mudança de um governo que ainda não tinha começado. Em 2026, o quadro é outro. Lula foi reeleito em 25 de outubro, e o mesmo presidente segue no cargo. Por isso, a comparação não prevê o que vem depois.

A reação do pregão de 26 de outubro de 2026, com queda de 13,88% no Ibovespa, não se explica pelos dados de 2002. Essa análise não a avalia, e outra reportagem deste site trata dos números daquele dia.

O que os dados mostram é uma sequência. O risco-país atingiu o pico antes do dólar e da Bolsa, e o Ibovespa fechou 2003 com ganho de 97%. Eles não mostram que o medo de Lula causou a alta. Ativos podem perder valor, e pânicos podem se aprofundar antes de passar. Esta reportagem não é recomendação de investimento.

Como fizemos: Usamos três séries diárias: a taxa de venda do dólar do Banco Central (série 1 do sistema SGS), o risco-país EMBI+ Brasil do Ipeadata (código JPM366_EMBI366) e o fechamento do Ibovespa do Yahoo Finance, acessadas em 26 de outubro de 2026. Conferimos o Ibovespa com a B3 e com a Agência Estado. As variações são cálculos da redação, em valores nominais, sem correção pela inflação. Duas fontes dão valores diferentes para o risco de 27 de setembro de 2002: 2.443 pontos na série do Ipeadata e 2.436 em reportagem do Congresso em Foco, de 2007. Uma reportagem do Estadão Conteúdo cita R$ 3,99 em 10 de outubro de 2002, e a série do Banco Central registra R$ 3,9228 naquele dia. Os dados mostram datas e coincidências, não causas.

Fontes