Em 2002, o risco-país atingiu o pico antes do dólar e da Bolsa
Em 2002, risco-país, dólar e Ibovespa tiveram picos e fundos em datas diferentes. Os dados mostram a sequência, não a causa.

Em 27 de setembro de 2002, o risco-país do Brasil chegou a 2.443 pontos, o maior nível do ano. O dólar só atingiu seu valor máximo do ano, R$ 3,9552, em 22 de outubro. A Bolsa caiu até 8.371 pontos em 16 de outubro. Os três marcos não aconteceram no mesmo dia.
Essa sequência importa para quem lê 2002 como um bloco só. Mostra que o pânico teve etapas, e que o risco e o dólar não subiram juntos o tempo todo. Este texto mostra os números e separa o que eles sustentam do que não sustentam.
Risco-país é o custo extra que o país paga para tomar dinheiro no exterior. Ele é medido em pontos-base, e 100 pontos-base equivalem a 1 ponto percentual de juros a mais. A série usada aqui é o EMBI+ Brasil, calculado pelo banco JP Morgan e disponível no Ipeadata, banco de dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). O Ibovespa, por sua vez, é o principal índice da Bolsa paulista: reúne as ações mais negociadas do país.
Durante a campanha, a imprensa passou a falar em “risco Lula”. A expressão descrevia a ideia de que a economia falharia se Lula vencesse, segundo a Wikipédia em inglês. Em 22 de junho, a campanha divulgou a Carta ao Povo Brasileiro, em que o candidato prometia não mudar a política econômica se eleito.
Entre 21 e 24 de junho, o risco-país caiu de 1.706 para 1.524 pontos, cerca de 11%. Como a carta saiu num sábado, a primeira reação aparece na segunda-feira, 24. A coincidência não prova que a carta causou a queda, e em 31 de julho o indicador já estava de volta a 2.307 pontos.
Três picos em datas diferentes
Pela taxa de venda do Banco Central, o dólar subiu de R$ 2,3066, em 2 de janeiro de 2002, para R$ 3,9552, em 22 de outubro. A alta foi de 71,5% em menos de dez meses. Em 31 de dezembro, a moeda estava em R$ 3,5333, 10,7% abaixo do pico.
A Bolsa teve trajetória diferente. Segundo o Yahoo Finance, o Ibovespa fechou 2001 em 13.578 pontos e fechou 2002 em 11.268, queda de 17%. Entre 16 e 25 de outubro, antes da votação do segundo turno, o índice já tinha subido 19,6%, de 8.371 para 10.015 pontos.
Do fundo de 16 de outubro ao fim de 2002, a alta foi de 34,6%. Em 2003, o Ibovespa subiu 97%, para 22.236 pontos. Em 2004, avançou mais 17,8%, para 26.196 pontos. Os valores batem com outras fontes: a B3, empresa que administra a Bolsa paulista, registra 20.183,97 pontos em 28 de novembro de 2003, e a Agência Estado informou alta de 17,81% em 2004.
O risco-país seguiu a mesma direção, em outra escala. Entre o pico de 27 de setembro e 31 de dezembro de 2002, caiu 41%, para 1.445 pontos. No fim de 2003, estava em 463 pontos, 81% abaixo do pico.
Coincidência não é causa
Outros fatores ocorreram no mesmo período e podem explicar parte do movimento. O primeiro é a crise argentina. Segundo a Agência Brasil, o governo argentino liberou o câmbio em dezembro de 2001, em meio à crise do país. Essa crise pode ter elevado o risco de toda a região, e os dados desta análise não separam esse efeito.
O segundo é o acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI). Em 6 de setembro de 2002, o fundo aprovou um crédito de reserva de US$ 30,4 bilhões para o Brasil, liberado em parcelas, a primeira de cerca de US$ 3 bilhões. O comunicado citava a preocupação com as políticas econômicas antes das eleições. Também dizia que o apoio dos principais candidatos ajudou a melhorar o sentimento do mercado.
O terceiro é o mercado mundial. As bolsas dos Estados Unidos chegaram ao fundo em 9 de outubro de 2002, segundo a Wikipédia em inglês. A recuperação das bolsas depois desse fundo também pode ter ajudado o Ibovespa, e os dados não permitem separar essa parte do ganho brasileiro.
O que diz o FMI: No comunicado de 6 de setembro de 2002, o fundo disse que o acordo buscava “reduce current market uncertainties and volatility” (reduzir incertezas e volatilidade do mercado) e uma “transição ordenada” para o novo governo. O texto está no site do FMI, comunicado 02/40.
Em 2002, o mercado temia a mudança de um governo que ainda não tinha começado. Em 2026, o quadro é outro. Lula foi reeleito em 25 de outubro, e o mesmo presidente segue no cargo. Por isso, a comparação não prevê o que vem depois.
A reação do pregão de 26 de outubro de 2026, com queda de 13,88% no Ibovespa, não se explica pelos dados de 2002. Essa análise não a avalia, e outra reportagem deste site trata dos números daquele dia.
O que os dados mostram é uma sequência. O risco-país atingiu o pico antes do dólar e da Bolsa, e o Ibovespa fechou 2003 com ganho de 97%. Eles não mostram que o medo de Lula causou a alta. Ativos podem perder valor, e pânicos podem se aprofundar antes de passar. Esta reportagem não é recomendação de investimento.
Como fizemos: Usamos três séries diárias: a taxa de venda do dólar do Banco Central (série 1 do sistema SGS), o risco-país EMBI+ Brasil do Ipeadata (código JPM366_EMBI366) e o fechamento do Ibovespa do Yahoo Finance, acessadas em 26 de outubro de 2026. Conferimos o Ibovespa com a B3 e com a Agência Estado. As variações são cálculos da redação, em valores nominais, sem correção pela inflação. Duas fontes dão valores diferentes para o risco de 27 de setembro de 2002: 2.443 pontos na série do Ipeadata e 2.436 em reportagem do Congresso em Foco, de 2007. Uma reportagem do Estadão Conteúdo cita R$ 3,99 em 10 de outubro de 2002, e a série do Banco Central registra R$ 3,9228 naquele dia. Os dados mostram datas e coincidências, não causas.
Fontes
- Taxa de venda do dólar, outubro de 2002 — Banco Central (SGS, série 1) (acesso em 26/10/2026)
- Taxa de venda do dólar, dezembro de 2003 a dezembro de 2004 — Banco Central (SGS, série 1) (acesso em 26/10/2026)
- Ipeadata — série EMBI+ Brasil (JPM366_EMBI366) (acesso em 26/10/2026)
- Ibovespa (^BVSP), fechamentos mensais de 2002 — Yahoo Finance (acesso em 26/10/2026)
- Marcos históricos do Ibovespa — B3
- Melhor investimento foi a Bolsa, o dólar o pior — Agência Estado, via Tribuna PR
- Após novo PIB, risco Brasil cai ao seu menor índice — Congresso em Foco (2007)
- Lula quer fazer nova carta aos brasileiros; veja a íntegra da primeira — Congresso em Foco
- Comunicado de imprensa 02/40, acordo com o Brasil — FMI
- 2002 Brazilian general election — Wikipédia em inglês
- Stock market downturn of 2002 — Wikipedia em inglês
- Matéria sobre a crise argentina, com a data de dezembro de 2001 — Agência Brasil (2014)
- Dólar ainda está longe do pico de 2002 — Gazeta do Povo (Estadão Conteúdo)

