Licitações

Polícia faz buscas na Prefeitura de Guaíba por fraude em licitação

Sete mandados de busca foram cumpridos na Prefeitura de Guaíba (RS) contra suspeitas de falsificar certificados em licitações.

Fachada da Prefeitura Municipal de Guaíba, prédio de dois andares com a inscrição PREFEITURA MUNICIPAL GUAÍBA sobre painel escuro, diante de um estacionamento com carros.
Prédio da Prefeitura Municipal de Guaíba (RS), em foto de arquivo de 2014; a imagem não mostra a operação de 22 de outubro de 2026.Foto: Paulo RS Menezes / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

Na quinta-feira (22), a Polícia Civil do Rio Grande do Sul cumpriu sete mandados de busca e apreensão na Prefeitura de Guaíba, cidade da Região Metropolitana de Porto Alegre. A ação, chamada Operação Pseudographos, apura suspeitas de fraude em licitação, falsificação de documento público, uso de documento falso e associação criminosa.

Os locais revistados incluem a Procuradoria-Geral do Município, a sede de uma empresa de terceirização e um escritório de contabilidade. Uma pessoa foi presa por porte ilegal de arma. Segundo a polícia, essa prisão não está ligada aos crimes investigados.

Como funciona a disputa sob suspeita

Licitação é o processo que o governo usa para comprar serviços e produtos. Em um pregão eletrônico, empresas disputam o contrato pela internet, com lances de preço. Para participar, a empresa envia documentos que provam sua capacidade de cumprir o contrato.

Um desses documentos é o certificado de capacidade financeira. Segundo o Jornal Timoneiro, a Contadoria e Auditoria-Geral do Estado (CAGE) é o órgão que emite esse certificado.

O que a polícia aponta

Segundo as reportagens, a empresa investigada é a Set Service Serviços de Terceirização. Ela teria apresentado certificados falsificados em dois pregões de 2024. A CAGE identificou indícios de falsificação, segundo o Jornal Timoneiro.

Os sinais citados são três. Um certificado tem data de junho de 2024, quando os sistemas estaduais estavam fora do ar por causa das enchentes, segundo o Jornal Timoneiro. Parte da numeração corresponde a registros de outras empresas, segundo o Cliccamaqua. Segundo o delegado Augusto Zenon, o Instituto-Geral de Perícias (IGP) apontou “fortes indicadores de falsidade”.

Pagamentos e a figura do procurador

A investigação também trata de pagamentos. Segundo o Cliccamaqua, cerca de R$ 310 mil foram liberados em 19 de setembro de 2024, valores retidos de um contrato de 2018. A liberação ocorreu em um único dia, apesar de manifestações contrárias de setores técnicos.

O procurador-geral do município, Guilherme Alexsander Trindade, está entre os investigados. Segundo o Poa24, a prefeita Cláudia Jardim anunciou a exoneração dele. A reportagem diz que ele é suspeito de atuar em benefício da Set Service. O ex-subprocurador André Luis Souza de Moura também é investigado.

O Cliccamaqua relata nove transferências, entre setembro de 2023 e março de 2024, somando cerca de R$ 175,7 mil, do ex-subprocurador para Trindade. As defesas da Set Service, de Trindade e de Moura não tinham se manifestado até a publicação da reportagem do Poa24.

O ex-prefeito Marcelo Maranata não é investigado, segundo o Jornal Timoneiro. Ele deixou o cargo em abril de 2026 para disputar o governo gaúcho, segundo o Cliccamaqua.

Como conferir o dinheiro público

Qualquer cidadão pode acompanhar licitações. O Portal Nacional de Contratações Públicas (PNCP) reúne editais, avisos e contratos da União, dos estados e dos municípios. A base legal é a Lei 14.133/2021, a nova lei de licitações.

Para conferir, procure o nome ou o CNPJ da empresa. Veja o edital, o valor do contrato e os aditivos. Aditivo é a alteração feita em um contrato já assinado, e pode mudar preço ou prazo. Depois, compare as datas e os valores com os pagamentos no portal de transparência da prefeitura, se houver.

O que vem a seguir

Até agora, a polícia fala em indícios e suspeitas. Ninguém foi condenado. Segundo o Jornal Timoneiro, a Polícia Civil afirmou que “as responsabilidades individuais serão apuradas com respeito ao contraditório e à ampla defesa”. Cabe à Justiça decidir se há crime e quem responde por ele.

O que diz a Prefeitura de Guaíba: A prefeita Cláudia Jardim disse que a exoneração de Trindade tem caráter administrativo e preventivo, segundo o Poa24. Ela afirmou que a prefeitura abriu procedimentos internos e seguirá colaborando com a polícia, o Ministério Público e o Judiciário. A reportagem não registra nota da administração sobre as suspeitas.

Como fizemos: Usamos três reportagens publicadas entre 22 e 23 de outubro de 2026 (Poa24, Cliccamaqua e Jornal Timoneiro), acessadas nesta data, e a página oficial do PNCP. Não fizemos cálculos próprios; os valores em reais vêm só do Cliccamaqua, pois Poa24 e Jornal Timoneiro não os informam. Os nomes de Trindade e de Moura aparecem nas reportagens, já que a polícia não nomeou investigados em seu comunicado, segundo o Poa24. Não encontramos nota oficial da Polícia Civil nem acesso aos autos ou à decisão que autorizou os mandados.

Fontes