Flávio pede anulação e Trump questiona a eleição brasileira
Carta da OEA e Pacto da ONU tratam de eleições livres; veja o que outros países fizeram com quem recusou o resultado de uma eleição.

No domingo, 25 de outubro de 2026, Lula foi reeleito presidente com 51,79% dos votos válidos, ou seja, sem contar brancos e nulos. A vantagem foi de cerca de 4,4 milhões de votos, segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), informou a CBS News. No mesmo dia, Flávio Bolsonaro, do Partido Liberal (PL), disse que não reconhece o resultado e vai pedir a anulação da eleição.
Este texto mostra o que dizem as normas internacionais sobre quem não aceita a derrota. Também mostra o que aconteceu em outros países e as reações estrangeiras registradas até 26 de outubro.
O argumento de Flávio gira em torno da votação. Na tarde de domingo, o ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal (STF), estendeu o horário de votação por duas horas, até as 19h, por alegados problemas de transporte. Segundo a InfoMoney, o pedido partiu da campanha de Lula. Segundo o Insper, menos de 35 mil votos foram dados nessas duas horas, cerca de 0,03% do total.
O que dizem as normas e as reações de fora
A Carta Democrática Interamericana, da Organização dos Estados Americanos (OEA), coloca as eleições periódicas, livres e justas entre os elementos essenciais da democracia. Seu artigo 23 diz que os Estados membros são responsáveis pela “organização, realização e garantia de processos eleitorais livres e justos”. A obrigação recai sobre o Estado, não sobre o candidato.
O Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos da Organização das Nações Unidas (ONU) trata do voto no artigo 25. O Comentário Geral 25 do Comitê de Direitos Humanos fala na “livre expressão da vontade do eleitor” (tradução nossa) e pede uma autoridade eleitoral independente para supervisionar o processo. Nenhum desses textos impõe ao candidato derrotado o dever de reconhecer a derrota.
Na OEA, José Miguel Insulza, chefe da missão de observação, pediu no domingo que as pessoas “aguardem com tranquilidade os resultados oficiais”. Pediu também que os candidatos “respeitem e aceitem a vontade cidadã expressa nas urnas”. O comunicado não citou Flávio Bolsonaro.
Na Europa, o presidente do Conselho Europeu, António Costa, escreveu no X que “O povo brasileiro falou”. Em Portugal, o presidente António José Seguro felicitou Lula em 26 de outubro. Líderes do México, do Panamá e da Bolívia também parabenizaram Lula, segundo a Olá Bahia.
O caso fora do padrão é o dos Estados Unidos. Na segunda-feira (26), o presidente Donald Trump disse a jornalistas que a eleição “pareceu mais uma eleição fraudada”. Segundo o Brasil de Fato, ele não apresentou provas. Na mesma fala, disse que gosta de Lula. Nas fontes consultadas, foi a única contestação do resultado por um chefe de governo estrangeiro.
Como outros casos terminaram
Nos Estados Unidos, em 2020, Trump perdeu para Joe Biden e alegou fraude. Em 4 de dezembro, a agência Associated Press (AP) contava mais de 30 ações de sua campanha e aliados rejeitadas ou abandonadas. Em 6 de janeiro de 2021, apoiadores dele invadiram o Capitólio enquanto o Congresso confirmava a vitória de Biden.
No Brasil, manifestantes invadiram as sedes dos Três Poderes em Brasília em 8 de janeiro de 2023. Segundo dados consolidados do STF citados pelo O Povo, 1.039 pessoas foram condenadas pelos atos. Em 11 de setembro de 2025, a Primeira Turma do STF condenou Jair Bolsonaro a 27 anos e 3 meses de prisão por tentativa de golpe de Estado, por 4 votos a 1.
Outros casos mostram que tribunais podem anular eleições. Em 2017, a Suprema Corte do Quênia anulou a votação presidencial de agosto, por 4 votos a 2, por descumprimento das regras eleitorais. Em 3 de fevereiro de 2020, o Tribunal Constitucional da Malawi anulou a eleição de 2019 por irregularidades, como folhas de resultado com trechos apagados ou alterados com corretivo. Na nova votação do Quênia, o principal opositor deixou a disputa. Na Malawi, Lazarus Chakwera venceu a repetição, em 23 de junho de 2020, com 58,57%.
O que isso significa
Até 26 de outubro, a contestação brasileira ficou no campo da declaração. Flávio disse que vai pedir a anulação, mas a cobertura consultada não relata pedido protocolado. Segundo a Reuters, três fontes ligadas ao TSE e ao STF consideram remota a chance de anulação, dada a diferença de mais de 4 milhões de votos.
Os precedentes indicam que a contestação se decide em tribunal, com provas, e não por declarações. Ainda não se sabe se o pedido será apresentado, nem com quais provas. Também não há resposta oficial do governo americano além da fala de Trump.
O que diz Flávio Bolsonaro: Ao falar após a derrota, ele disse: “É impossível reconhecer o resultado dessa eleição no contexto em que essas coisas aconteceram” e “Vamos pedir a anulação dessas eleições”, segundo a InfoMoney, em 25 de outubro de 2026.
Como fizemos: Usamos reportagens de 25 e 26 de outubro de 2026 (CBS News, InfoMoney, Brasil de Fato, Tribuna de Jundiaí, Antena 1, Senado Notícias, CNN Brasil, Olá Bahia, Boston Globe, Tribuna do Sertão), o comunicado da Presidência de Portugal e os textos da Carta da OEA e do Comentário Geral 25, em cópias online, acessados em 26/10/2026. O percentual de 51,79% é o citado pela imprensa; não lemos a totalização oficial do TSE. Não encontramos a contagem de “60 ou mais” ações perdidas por Trump em 2020, por isso usamos o levantamento da AP de 4/12/2020. Não houve contato direto com Flávio Bolsonaro, o TSE ou a OEA para este texto.
Fontes
- Brazil’s Lula wins fourth term, beating Flávio Bolsonaro in runoff — CBS News (25/10/2026)
- Flávio não reconhece resultado da eleição e diz que pedirá anulação ao TSE — InfoMoney (25/10/2026)
- Derrota expressiva de Flávio Bolsonaro torna improvável anulação da eleição — Antena 1, com informações da Reuters
- Presidente do TSE proclama o resultado final das eleições 2026 — Senado Notícias (25/10/2026)
- Sem provas, Trump repete narrativa de Flávio Bolsonaro — Brasil de Fato (26/10/2026)
- Trump diz que eleição no Brasil pareceu fraudada — Tribuna de Jundiaí (26/10/2026)
- Lula mobilized millions to win Brazil’s election, while Bolsonaro contests loss and Trump cries foul — Boston Globe (26/10/2026)
- OEA pede tranquilidade e respeito ao resultado das urnas no segundo turno — CNN Brasil (25/10/2026)
- Presidentes latino-americanos parabenizam Lula por reeleição; Trump e Milei não se manifestam — Olá Bahia (26/10/2026)
- Presidente da República felicita Luiz Inácio Lula da Silva pela sua reeleição — Presidência da República de Portugal (26/10/2026)
- Presidente do Conselho Europeu parabeniza Lula e destaca parceria com o Brasil — Tribuna do Sertão (26/10/2026)
- Carta Democrática Interamericana (texto em português) — OEA
- General Comment 25, Comitê de Direitos Humanos da ONU (cópia da Universidade de Minnesota)
- Declaration of Principles for International Election Observation — ACE Project
- Trump loves to win but keeps losing election lawsuits — AP (4/12/2020)
- January 6 Capitol riot — History.com
- Atos de 8 de janeiro: o que aconteceu e quem foi condenado — O Povo (8/1/2026)
- Jair Bolsonaro é considerado culpado pelo STF por golpe de Estado — Bloomberg Línea (11/9/2025)
- Malawi Constitutional Court annuls presidential election results — ConstitutionNet
- Malawi presidential election: Lazarus Chakwera declared winner — Al Jazeera (27/6/2020)
- Elections Kenya 2017: rerun of presidential elections — IFES
- Organization american states building — Aude, Wikimedia Commons (CC BY-SA 2.5)



