Gastos públicos

Tesouro recompra R$ 16,8 bilhões e cancela leilão do Tesouro Selic

Operação desta terça comprou 95,39% do lote de NTN-Bs; somada à véspera, a recompra chega a R$ 31,6 bilhões em dois dias.

Fachada de concreto do Ministério da Fazenda, em Brasília, com o nome do órgão e veículos passando em primeiro plano.
O prédio do Ministério da Fazenda, ao qual o Tesouro Nacional é vinculado, em Brasília, em foto de junho de 2017.Foto: Pillar Pedreira / Agência Senado / Wikimedia Commons (CC BY 2.0)

O Tesouro Nacional recomprou nesta terça-feira (27) aproximadamente R$ 16,791 bilhões em títulos ligados à inflação. Foram adquiridos 95,39% do lote de 4 milhões de papéis oferecido em leilão extraordinário, segundo o Valor Econômico.

Na véspera, duas operações haviam somado mais de R$ 14,8 bilhões. Em dois dias, as recompras chegam a cerca de R$ 31,6 bilhões. O volume desta terça é aproximadamente 13% maior que o de segunda-feira.

O Tesouro também cancelou o leilão tradicional de Letras Financeiras do Tesouro (LFT), títulos conhecidos como Tesouro Selic. Na véspera, já havia suspendido as vendas de papéis prefixados e dos ligados à inflação.

Como foi a operação desta terça

A recompra alcançou quatro vencimentos de Notas do Tesouro Nacional Série B (NTN-B). Esses papéis pagam o IPCA, o índice oficial de inflação, mais uma taxa de juros. O Tesouro comprou de investidores títulos que já estavam no mercado.

Em dois vencimentos, o lote de 1 milhão de papéis foi integralmente adquirido. Para 2035 e 2045, as compras ficaram em 895,75 mil e 919,7 mil títulos. A liquidação financeira ocorrerá na quarta-feira (28).

Recompra alcança 95,39% dos títulos oferecidos Quantidades e taxas médias por vencimento, no leilão de 27 de outubro de 2026

Vencimento Títulos recomprados Taxa média, além do IPCA
15/08/2030 1 milhão 7,7010% ao ano
15/05/2035 895,75 mil 7,6500% ao ano
15/08/2040 1 milhão 7,4613% ao ano
15/05/2045 919,7 mil 7,2900% ao ano

Fonte: Tesouro Nacional, via Valor Econômico. IPCA é o índice oficial de inflação.

A taxa de corte foi de 8,10% apenas no vencimento de 2040. Esse mecanismo reduz a quantidade aceita de cada proposta quando a demanda pelo leilão supera o limite. Nos outros três vencimentos, não houve corte, conforme o Valor.

Por que a recompra não é um gasto comum

A operação sai do caixa do governo, mas antecipa a retirada de uma dívida que já existia. Não equivale a criar despesa com um novo serviço ou investimento. O efeito líquido sobre o custo da dívida depende das condições dos papéis e do refinanciamento futuro.

No leilão tradicional, o Tesouro vende títulos e capta recursos. Na recompra, faz o caminho inverso. A medida também absorve parte da pressão de venda dos investidores, quando os preços caem e as taxas sobem.

Os juros futuros haviam disparado após o segundo turno da eleição. O ministro da Fazenda, Dario Durigan, classificou o movimento como um ajuste de expectativas. Ele afirmou que a intervenção dependia das condições e da necessidade, segundo a Agência Brasil.

O cancelamento das vendas reduz a oferta de novos papéis nesta semana. A recompra e a suspensão atuam juntas no mercado, mas têm efeitos distintos sobre o caixa e a dívida.

O que diz o Tesouro Nacional: No comunicado reproduzido pelo InfoMoney, o órgão afirmou que “continuará monitorando as condições de mercado e atuará de forma a assegurar o bom funcionamento do mercado de títulos públicos e dos demais ativos a eles relacionados”.

O que observar nos próximos dias

A liquidação de quarta-feira confirmará a saída de caixa e a baixa dos títulos. Os próximos relatórios da dívida mostrarão o efeito sobre o estoque e o perfil dos vencimentos. Uma recompra isolada não permite concluir quanto o governo economizará ou pagará a mais.

O número relevante para o contribuinte não é só o volume de dois dias. Também importam as taxas acima de 7% ao ano, além da inflação, e a necessidade de novas intervenções para manter o mercado funcionando.

Como fizemos: Consultamos Valor Econômico, InfoMoney e Agência Brasil em 27/10/2026. Somamos R$ 16,791 bilhões desta terça a mais de R$ 14,8 bilhões da véspera, usando valores arredondados. Calculamos a diferença percentual com R$ 14,8 bilhões como base. Não estimamos economia fiscal, porque ela depende do refinanciamento e do preço de cada título.

Fontes