Licitações

TCU apura preço e reabertura de pregão de insulina da Biomm

Contrato de R$ 42,9 milhões para insulina humana do SUS está sob análise do TCU, que examina o preço e a reabertura do pregão.

O presidente Lula, de terno azul, e uma mulher de jaleco branco seguram caixas de insulina da Biomm durante cerimônia na fábrica da empresa.
O presidente Lula segura uma caixa de insulina da Biomm, ao lado de uma mulher de jaleco, na inauguração da fábrica da empresa em Nova Lima (MG), em 26 de abril de 2024.Foto: Ricardo Stuckert / PR / Wikimedia Commons (CC BY-SA 2.0)

O Tribunal de Contas da União (TCU) analisa indícios de irregularidade em um contrato de R$ 42,9 milhões do Ministério da Saúde para compra de insulina humana. A fornecedora é a Biomm, empresa ligada ao banqueiro Daniel Vorcaro. O caso foi relatado pela Gazeta do Povo em 23 de outubro de 2026.

O foco está no preço e na reabertura de um pregão eletrônico, a disputa de preços feita pela internet. Segundo a reportagem, o TCU quer saber por que a licitação foi reaberta de forma favorável à empresa, sem justificativa documentada.

Um teto de preço que subiu em nove dias

Em dezembro de 2023, um pregão para a mesma insulina fracassou. O teto era de R$ 12,95 por frasco, e três propostas ficaram acima dele. Uma delas era da Biomm, de R$ 19,70.

Em 21 de dezembro, uma nota técnica do próprio ministério fixou o novo teto em R$ 19,70. Nota técnica é o documento em que a área responsável justifica uma decisão. A alta foi de 52,12% em relação ao teto anterior.

O ministério diz que o valor foi técnico. Em nota, afirmou que “foi definido o menor valor encontrado no mercado (R$ 19,7) após ter fracassado o pregão anterior”.

Uma única concorrente e uma desistência

Em 11 de janeiro de 2024, abriu-se um novo pregão, com o número 90011/2024. A Biomm foi a única participante. Ela começou em R$ 22, chegou a R$ 21 e fechou em R$ 19,70 por frasco.

No dia seguinte, a empresa desistiu da proposta. Alegou que o fabricante indiano não garantia prazos de entrega. Segundo documentos citados pela reportagem, servidores pediram a abertura de processo de sanção contra a Biomm, e esse passo não foi adotado.

Em 26 de janeiro, a Biomm pediu que a licitação seguisse, e a fase de lances foi retomada. A decisão não menciona o pedido de sanção. O contrato nº 141/2024 começou em R$ 34,3 milhões e subiu para R$ 42,9 milhões por meio de um aditivo, uma alteração de valor.

Vínculos políticos e o que ainda não se sabe

Mensagens do celular de Vorcaro citam Walfrido dos Mares Guia, ex-ministro e sócio da Biomm, e o ministro da Saúde, Alexandre Padilha. A assessoria de Padilha disse que, em 2024, ele não chefiava a pasta e que nada resultou do encontro com Vorcaro. Walfrido não respondeu até a publicação da reportagem.

Vorcaro é investigado, sem condenação, no caso do Banco Master. Ele foi preso em 4 de março de 2026, na terceira fase da Operação Compliance Zero, da Polícia Federal (PF). O fundo Cartago, ligado ao banco, tinha 25,86% da Biomm, segundo o Poder360. O ministério diz que o contrato foi assinado antes de esse fundo entrar no capital da empresa.

Pacientes do SUS e os contratos de 2025

Em 2025, a Biomm fechou pelo menos três contratos com o ministério, que somam pelo menos R$ 303,65 milhões, segundo o Poder360. Um deles, de R$ 142 milhões, é para insulina humana. A representação ao TCU, segundo a Gazeta do Povo, trata do contrato de 2024.

O atraso na entrega é outro ponto. Segundo o Metrópoles, cerca de 1,57 milhão de doses ainda não tinham sido entregues ou faturadas em maio de 2026. O ministério notificou a Biomm. A empresa atribui os atrasos à logística global e a restrições de fornecimento. O ministério diz que não há falta de insulina no SUS.

O que diz o Ministério da Saúde: Segundo a Gazeta do Povo, a pasta afirma que “é um completo absurdo relacionar este processo a qualquer influência externa de quem quer que seja”. Ela também diz que a Biomm venceu 2 de 14 pregões desde 2023.

O que diz a Biomm: Segundo a Gazeta do Povo, a empresa afirma que “não recebeu qualquer notificação, citação ou intimação por parte do Tribunal de Contas da União”. Diz seguir “convicta da total lisura e regularidade de suas contratações”.

O que isso significa

O TCU ainda não decidiu. Segundo a Gazeta do Povo, o tribunal informou que as suspeitas precisam ser examinadas, e o processo tramita sob sigilo. Não há conclusão sobre irregularidades.

O ponto central é o preço. A diferença entre o teto antigo e o novo é de R$ 6,75 por frasco. O processo precisa mostrar se esse aumento foi justificado pelo mercado.

Como fizemos: Usamos reportagens da Gazeta do Povo (22 e 23/10/2026), do Poder360 (28/01/2026), do Metrópoles (24/05/2026) e do Diário de Pernambuco (05/03/2026), acessadas em 23/10/2026. Não tivemos acesso ao processo do TCU, que está sob sigilo, nem à nota técnica citada. Calculamos a alta de 52,12% (R$ 19,70 sobre R$ 12,95) e a diferença de R$ 6,75 por frasco. O total de R$ 303,65 milhões é a soma dos valores publicados pelo Poder360.

Fontes