TCU apura preço e reabertura de pregão de insulina da Biomm
Contrato de R$ 42,9 milhões para insulina humana do SUS está sob análise do TCU, que examina o preço e a reabertura do pregão.

O Tribunal de Contas da União (TCU) analisa indícios de irregularidade em um contrato de R$ 42,9 milhões do Ministério da Saúde para compra de insulina humana. A fornecedora é a Biomm, empresa ligada ao banqueiro Daniel Vorcaro. O caso foi relatado pela Gazeta do Povo em 23 de outubro de 2026.
O foco está no preço e na reabertura de um pregão eletrônico, a disputa de preços feita pela internet. Segundo a reportagem, o TCU quer saber por que a licitação foi reaberta de forma favorável à empresa, sem justificativa documentada.
Um teto de preço que subiu em nove dias
Em dezembro de 2023, um pregão para a mesma insulina fracassou. O teto era de R$ 12,95 por frasco, e três propostas ficaram acima dele. Uma delas era da Biomm, de R$ 19,70.
Em 21 de dezembro, uma nota técnica do próprio ministério fixou o novo teto em R$ 19,70. Nota técnica é o documento em que a área responsável justifica uma decisão. A alta foi de 52,12% em relação ao teto anterior.
O ministério diz que o valor foi técnico. Em nota, afirmou que “foi definido o menor valor encontrado no mercado (R$ 19,7) após ter fracassado o pregão anterior”.
Uma única concorrente e uma desistência
Em 11 de janeiro de 2024, abriu-se um novo pregão, com o número 90011/2024. A Biomm foi a única participante. Ela começou em R$ 22, chegou a R$ 21 e fechou em R$ 19,70 por frasco.
No dia seguinte, a empresa desistiu da proposta. Alegou que o fabricante indiano não garantia prazos de entrega. Segundo documentos citados pela reportagem, servidores pediram a abertura de processo de sanção contra a Biomm, e esse passo não foi adotado.
Em 26 de janeiro, a Biomm pediu que a licitação seguisse, e a fase de lances foi retomada. A decisão não menciona o pedido de sanção. O contrato nº 141/2024 começou em R$ 34,3 milhões e subiu para R$ 42,9 milhões por meio de um aditivo, uma alteração de valor.
Vínculos políticos e o que ainda não se sabe
Mensagens do celular de Vorcaro citam Walfrido dos Mares Guia, ex-ministro e sócio da Biomm, e o ministro da Saúde, Alexandre Padilha. A assessoria de Padilha disse que, em 2024, ele não chefiava a pasta e que nada resultou do encontro com Vorcaro. Walfrido não respondeu até a publicação da reportagem.
Vorcaro é investigado, sem condenação, no caso do Banco Master. Ele foi preso em 4 de março de 2026, na terceira fase da Operação Compliance Zero, da Polícia Federal (PF). O fundo Cartago, ligado ao banco, tinha 25,86% da Biomm, segundo o Poder360. O ministério diz que o contrato foi assinado antes de esse fundo entrar no capital da empresa.
Pacientes do SUS e os contratos de 2025
Em 2025, a Biomm fechou pelo menos três contratos com o ministério, que somam pelo menos R$ 303,65 milhões, segundo o Poder360. Um deles, de R$ 142 milhões, é para insulina humana. A representação ao TCU, segundo a Gazeta do Povo, trata do contrato de 2024.
O atraso na entrega é outro ponto. Segundo o Metrópoles, cerca de 1,57 milhão de doses ainda não tinham sido entregues ou faturadas em maio de 2026. O ministério notificou a Biomm. A empresa atribui os atrasos à logística global e a restrições de fornecimento. O ministério diz que não há falta de insulina no SUS.
O que diz o Ministério da Saúde: Segundo a Gazeta do Povo, a pasta afirma que “é um completo absurdo relacionar este processo a qualquer influência externa de quem quer que seja”. Ela também diz que a Biomm venceu 2 de 14 pregões desde 2023.
O que diz a Biomm: Segundo a Gazeta do Povo, a empresa afirma que “não recebeu qualquer notificação, citação ou intimação por parte do Tribunal de Contas da União”. Diz seguir “convicta da total lisura e regularidade de suas contratações”.
O que isso significa
O TCU ainda não decidiu. Segundo a Gazeta do Povo, o tribunal informou que as suspeitas precisam ser examinadas, e o processo tramita sob sigilo. Não há conclusão sobre irregularidades.
O ponto central é o preço. A diferença entre o teto antigo e o novo é de R$ 6,75 por frasco. O processo precisa mostrar se esse aumento foi justificado pelo mercado.
Como fizemos: Usamos reportagens da Gazeta do Povo (22 e 23/10/2026), do Poder360 (28/01/2026), do Metrópoles (24/05/2026) e do Diário de Pernambuco (05/03/2026), acessadas em 23/10/2026. Não tivemos acesso ao processo do TCU, que está sob sigilo, nem à nota técnica citada. Calculamos a alta de 52,12% (R$ 19,70 sobre R$ 12,95) e a diferença de R$ 6,75 por frasco. O total de R$ 303,65 milhões é a soma dos valores publicados pelo Poder360.
Fontes
- TCU investiga compra de insulina pelo Ministério da Saúde em contrato milionário — Gazeta do Povo (23/10/2026)
- Investigação apura ligação de Vorcaro com membros do governo Lula na venda de insulina ao SUS — Gazeta do Povo (22/10/2026, atualizada em 23/10/2026)
- Empresa de Vorcaro fechou R$ 303,65 mi em contratos com governo Lula — Poder360 (28/01/2026)
- Farmacêutica que era ligada ao Master atrasa entrega de insulina ao SUS e é notificada pelo governo — Metrópoles (24/05/2026)
- Imprensa internacional repercute prisão de Daniel Vorcaro — Diário de Pernambuco (05/03/2026)


