Investigações

PF aponta R$ 80 milhões em emendas sem autor para Belford Roxo

Representação da PF ao STF cita emendas de liderança do União Brasil à prefeitura na gestão de Márcio Canella. Os documentos não provam desvio.

Prédio da Câmara Municipal de Belford Roxo, com a faixa Poder Legislativo e o brasão da cidade, sob um céu nublado.
Prédio da Câmara Municipal de Belford Roxo (RJ), em foto de 2022. É imagem de arquivo, e a Câmara não é o órgão que recebeu as emendas.Foto: Sir Velpertex di Crantx / Wikimedia Commons (CC BY 4.0)

A Polícia Federal (PF) aponta R$ 80 milhões em emendas enviadas a Belford Roxo, na Baixada Fluminense, durante a gestão de Márcio Canella. O dinheiro entrou como “emendas de liderança”, sem o nome dos parlamentares que o indicaram. A informação consta da representação, o pedido formal da PF enviado ao Supremo Tribunal Federal (STF), segundo a InfoMoney.

Emendas são verbas que deputados e senadores indicam para estados e municípios. Quando a indicação não tem autor identificado, fica mais difícil saber quem decidiu o destino do dinheiro. Segundo a reportagem, as verbas foram apontadas pela liderança do União Brasil na Câmara dos Deputados.

Os valores aparecem em uma investigação maior. Em 15 de outubro, a PF deflagrou a oitava fase da Operação Unha e Carne. Segundo a nota da PF, uma organização criminosa armada usaria uma rede de postos de combustíveis do Rio para lavar dinheiro. Um relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), órgão que monitora movimentações suspeitas, aponta mais de R$ 7,6 bilhões em seis anos.

O número de R$ 7,6 bilhões não é o valor das emendas. Ele se refere às movimentações investigadas no esquema, segundo a InfoMoney.

Márcio Canella foi preso preventivamente em 15 de outubro. Prisão preventiva é a prisão decretada antes de qualquer condenação. Segundo a Carta Capital, a ordem partiu do ministro Alexandre de Moraes, do STF. Em 16 de outubro, a Justiça Federal manteve a prisão após as audiências de custódia, segundo a Agenda do Poder. Nessa audiência, um juiz revê a detenção logo depois de ela acontecer.

Canella é investigado e não foi condenado. Em julho, ele já havia sido preso em flagrante com um fuzil no carro. Moraes o soltou depois, com medidas cautelares, e mais tarde revogou essas medidas, segundo o O Povo e o Jornal Opção.

Quem indicou o dinheiro

Os documentos citam uma anotação encontrada no celular de Canella: “Emendas / 20 Pedro 20 Mota”. A PF associa os nomes aos deputados federais Pedro Lucas Fernandes e Gabriel Mota. Os documentos, porém, não explicam o que significam os números. Também não mostram que os deputados foram responsáveis pelos R$ 80 milhões, segundo a InfoMoney.

“Procurados, os parlamentares não se manifestaram até a publicação desta reportagem”, informa a InfoMoney. A representação também não diz quais obras ou serviços seriam pagos com o dinheiro. Tampouco informa quanto chegou de fato à prefeitura.

A defesa de Canella, feita pela advogada Sheila Lustoza, afirmou que ele “confia em Deus, na Justiça e tem certeza de que tudo será esclarecido”, ainda segundo a InfoMoney.

O que os documentos não provam

Os documentos não provam que o dinheiro foi desviado. A decisão de Moraes também não estabelece esse desvio, segundo o Congresso em Foco. A InfoMoney registra que a representação não estabelece uma ligação financeira direta entre essas verbas e as movimentações suspeitas.

A trilha do dinheiro tem outro dado. A decisão cita cerca de R$ 1,4 milhão transferido entre maio de 2025 e abril de 2026 pela empresa Brumar Empreendimentos e Participações a Canella. Canella é sócio da empresa, segundo a Carta Capital. A análise financeira não identificou a origem desse valor. As reportagens consultadas não ligam esse valor às emendas.

O que diz Márcio Canella: Por meio da advogada Sheila Lustoza, afirmou que “confia em Deus, na Justiça e tem certeza de que tudo será esclarecido”, segundo a InfoMoney. Os deputados citados não se manifestaram até a publicação da reportagem.

O que segue em aberto

Até agora, os documentos apontam a liderança do União Brasil como origem das indicações. Eles não trazem o nome de quem as fez. Esse dado faltante é o elo que a investigação ainda não mostrou.

A investigação está em andamento, e ninguém foi condenado no caso. Enquanto o nome de quem indicou as verbas não aparecer em registros oficiais, o rastro do dinheiro para na prefeitura.

Como fizemos: Usamos as reportagens da InfoMoney (republicação de O Globo, 16/10/2026), da BPMoney, da CNN Brasil, da Carta Capital, da Agenda do Poder, do Congresso em Foco, do O Povo e do Jornal Opção, além da nota da PF divulgada pela Agência Gov, todas acessadas em 24/10/2026. Não tivemos acesso à representação da PF nem à decisão de Moraes, por isso os trechos citados vêm das reportagens. A cifra de R$ 80 milhões aparece na InfoMoney e na BPMoney, que parecem reproduzir a mesma apuração. Não encontramos manifestação pública de Pedro Lucas ou Gabriel Mota sobre o caso. A InfoMoney descreve Gabriel Mota como do União Brasil, mas a Wikipédia e um veículo de Roraima o listam no Republicanos, dado a conferir no site da Câmara.

Fontes