OpiniãoArtigo de opinião

Quem chama um banqueiro investigado de "irmão" não pode prometer combater a corrupção

No debate, Flávio prometeu um "tesouraço" contra a corrupção. A promessa vem de quem pediu US$ 24 milhões a Vorcaro e quer tirar do STF os processos criminais.

Este é um artigo de opinião. Ele reflete as ideias do autor, não necessariamente as do Jornal Tiradentes.

Flávio Bolsonaro, de óculos e terno azul, discursa gesticulando na tribuna do Senado, ao lado da bandeira do Brasil.
O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) discursa na tribuna do Senado, em 5 de novembro de 2025 (imagem de arquivo).Foto: Waldemir Barreto / Agência Senado / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

No debate da Band, em 18 de outubro, Flávio Bolsonaro deu um novo sentido ao “tesouraço” de seu plano de governo. A tesourada, disse, seria na corrupção do governo Lula, segundo o Poder360. É uma promessa que todo eleitor de direita gostaria de ouvir. O problema é quem a faz.

Nós, que defendemos a Lava Jato, a polícia e o agro, não medimos um candidato pelo que ele promete. Medimos pelo que ele fez. E o histórico de Flávio no assunto corrupção não autoriza a promessa.

O “irmão” do banqueiro

Em 16 de novembro de 2025, Flávio escreveu ao banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master: “Irmão, estou e estarei contigo sempre”. No dia seguinte, Vorcaro foi preso. Segundo o Intercept Brasil, Flávio tinha negociado com ele US$ 24 milhões, cerca de R$ 134 milhões, para um filme sobre Jair Bolsonaro.

Desde julho de 2026, há um inquérito no Supremo Tribunal Federal (STF) sobre o caso. Ele apura lavagem de dinheiro, evasão de divisas e corrupção, e Flávio está entre os investigados, informou a Agência Brasil. Investigado não é réu, e é justo dizer isso.

Mas quem promete combater a corrupção precisa de um mínimo de distância de quem é investigado por ela. Flávio não guardou essa distância. Prometeu lealdade eterna. Num governo, essa distância se chama impessoalidade, e a Constituição a exige de todo administrador público.

Há mais. O plano de governo registrado em agosto propõe acabar com a competência do STF para julgar processos criminais originários, segundo o Congresso em Foco. Também prevê limitar decisões individuais dos ministros. A maior parte disso dependeria de emendas à Constituição.

Propor mudanças no Judiciário não é crime, e há quem defenda ideias parecidas de boa-fé. Mas o eleitor tem o direito de notar a coincidência. O candidato quer tirar do STF exatamente o tipo de caso em que hoje é investigado no STF. Nós, da direita, sempre dissemos que ninguém escolhe o próprio juiz.

Duro na favela, vago na Faria Lima

A contradição aparece também no plano para o crime. Para as facções armadas, Flávio promete força: segundo o plano, o criminoso armado de fuzil deve ser “abatido”. O texto prevê ainda cinco presídios de segurança máxima, informou o SBT News.

Para o crime que passa pelo sistema financeiro, a conversa é outra. Em junho de 2026, num evento na Faria Lima, ele pediu ao mercado financeiro que ajudasse a sufocar financeiramente os grupos narcoterroristas, segundo a Gazeta do Povo. Não apresentou nenhuma medida concreta para o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), a Receita Federal ou as fintechs.

Duro na favela, vago na Faria Lima. Combater a corrupção é seguir o dinheiro até o andar de cima. E o andar de cima, no caso Dark Horse, tem o nome de um banqueiro que Flávio chamou de irmão.

Para quem fiscaliza o dinheiro público, a lógica é conhecida. Corrupção se combate com controle: Coaf, Receita, tribunais de contas e polícia com autonomia. Tesoura sem esses instrumentos é discurso.

Há, por fim, o indulto. Flávio promete indultar o pai.

No debate, Lula afirmou que um indulto poderia beneficiar também Vorcaro. O Poder360 fez a ressalva justa: isso não é automático e depende dos termos do decreto. A pergunta, porém, fica: quem tem lealdade prometida a um banqueiro deveria ter a caneta do perdão?

O que diz Flávio Bolsonaro: ele afirma que o dinheiro de Vorcaro era privado e lícito e que o fato de ser senador não deu nada ao banqueiro, segundo a CNN Brasil. No debate da Band, apresentou o “tesouraço” como um corte na corrupção do atual governo.

Ninguém aqui está pedindo que o leitor goste de Lula. O pedido é que a direita não empreste a bandeira anticorrupção a quem chamou de irmão um banqueiro investigado.

No dia 25, a promessa do tesouraço na corrupção deveria ser julgada pelo histórico de quem a faz. E esse histórico não fecha. A direita merece um candidato que possa prometer a tesoura sem precisar escondê-la de si mesmo.

Fontes