Quem chama um banqueiro investigado de "irmão" não pode prometer combater a corrupção
No debate, Flávio prometeu um "tesouraço" contra a corrupção. A promessa vem de quem pediu US$ 24 milhões a Vorcaro e quer tirar do STF os processos criminais.
Este é um artigo de opinião. Ele reflete as ideias do autor, não necessariamente as do Jornal Tiradentes.

No debate da Band, em 18 de outubro, Flávio Bolsonaro deu um novo sentido ao “tesouraço” de seu plano de governo. A tesourada, disse, seria na corrupção do governo Lula, segundo o Poder360. É uma promessa que todo eleitor de direita gostaria de ouvir. O problema é quem a faz.
Nós, que defendemos a Lava Jato, a polícia e o agro, não medimos um candidato pelo que ele promete. Medimos pelo que ele fez. E o histórico de Flávio no assunto corrupção não autoriza a promessa.
O “irmão” do banqueiro
Em 16 de novembro de 2025, Flávio escreveu ao banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master: “Irmão, estou e estarei contigo sempre”. No dia seguinte, Vorcaro foi preso. Segundo o Intercept Brasil, Flávio tinha negociado com ele US$ 24 milhões, cerca de R$ 134 milhões, para um filme sobre Jair Bolsonaro.
Desde julho de 2026, há um inquérito no Supremo Tribunal Federal (STF) sobre o caso. Ele apura lavagem de dinheiro, evasão de divisas e corrupção, e Flávio está entre os investigados, informou a Agência Brasil. Investigado não é réu, e é justo dizer isso.
Mas quem promete combater a corrupção precisa de um mínimo de distância de quem é investigado por ela. Flávio não guardou essa distância. Prometeu lealdade eterna. Num governo, essa distância se chama impessoalidade, e a Constituição a exige de todo administrador público.
Há mais. O plano de governo registrado em agosto propõe acabar com a competência do STF para julgar processos criminais originários, segundo o Congresso em Foco. Também prevê limitar decisões individuais dos ministros. A maior parte disso dependeria de emendas à Constituição.
Propor mudanças no Judiciário não é crime, e há quem defenda ideias parecidas de boa-fé. Mas o eleitor tem o direito de notar a coincidência. O candidato quer tirar do STF exatamente o tipo de caso em que hoje é investigado no STF. Nós, da direita, sempre dissemos que ninguém escolhe o próprio juiz.
Duro na favela, vago na Faria Lima
A contradição aparece também no plano para o crime. Para as facções armadas, Flávio promete força: segundo o plano, o criminoso armado de fuzil deve ser “abatido”. O texto prevê ainda cinco presídios de segurança máxima, informou o SBT News.
Para o crime que passa pelo sistema financeiro, a conversa é outra. Em junho de 2026, num evento na Faria Lima, ele pediu ao mercado financeiro que ajudasse a sufocar financeiramente os grupos narcoterroristas, segundo a Gazeta do Povo. Não apresentou nenhuma medida concreta para o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), a Receita Federal ou as fintechs.
Duro na favela, vago na Faria Lima. Combater a corrupção é seguir o dinheiro até o andar de cima. E o andar de cima, no caso Dark Horse, tem o nome de um banqueiro que Flávio chamou de irmão.
Para quem fiscaliza o dinheiro público, a lógica é conhecida. Corrupção se combate com controle: Coaf, Receita, tribunais de contas e polícia com autonomia. Tesoura sem esses instrumentos é discurso.
Há, por fim, o indulto. Flávio promete indultar o pai.
No debate, Lula afirmou que um indulto poderia beneficiar também Vorcaro. O Poder360 fez a ressalva justa: isso não é automático e depende dos termos do decreto. A pergunta, porém, fica: quem tem lealdade prometida a um banqueiro deveria ter a caneta do perdão?
O que diz Flávio Bolsonaro: ele afirma que o dinheiro de Vorcaro era privado e lícito e que o fato de ser senador não deu nada ao banqueiro, segundo a CNN Brasil. No debate da Band, apresentou o “tesouraço” como um corte na corrupção do atual governo.
Ninguém aqui está pedindo que o leitor goste de Lula. O pedido é que a direita não empreste a bandeira anticorrupção a quem chamou de irmão um banqueiro investigado.
No dia 25, a promessa do tesouraço na corrupção deveria ser julgada pelo histórico de quem a faz. E esse histórico não fecha. A direita merece um candidato que possa prometer a tesoura sem precisar escondê-la de si mesmo.
Fontes
- Flávio fala em tesouraço na corrupção do governo Lula — Poder360
- Áudio: Flávio negociou milhões com Vorcaro — Intercept Brasil
- Mendonça incluiu Flávio Bolsonaro como investigado no caso Dark Horse — Agência Brasil
- Flávio propõe tirar processos criminais e reduzir competências do STF — Congresso em Foco
- Segurança pública: veja as propostas de Flávio na íntegra — SBT News
- Flávio mira fintechs de fachada contra o crime organizado na Faria Lima — Gazeta do Povo
- Lula diz que eventual indulto a Bolsonaro pode beneficiar Vorcaro — Poder360
- Flávio diz que dinheiro de Vorcaro para Dark Horse era lícito e privado — CNN Brasil



