OpiniãoArtigo de opinião

O "irmão" de Vorcaro não pode ser o candidato da direita anticorrupção

A direita que pede ética não pode entregar a bandeira a quem escreveu "irmão, estou e estarei contigo sempre" a um banqueiro na véspera da prisão dele.

Este é um artigo de opinião. Ele reflete as ideias do autor, não necessariamente as do Jornal Tiradentes.

Flávio Bolsonaro discursa de braços abertos na tribuna do plenário do Senado, com a bandeira do Brasil ao lado.
O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) discursa na tribuna do Senado, em 3 de dezembro de 2025 (imagem de arquivo).Foto: Carlos Moura / Agência Senado / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

“Irmão, estou e estarei contigo sempre.” Flávio Bolsonaro escreveu essa frase ao banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, em 16 de novembro de 2025. No dia seguinte, Vorcaro foi preso. A dez dias do segundo turno, é o autor dessa mensagem que pede o voto da direita anticorrupção.

Nós, que defendemos a Lava Jato, a polícia e o agro, sabemos o peso das palavras. “Irmão” não é tratamento de quem mantém uma relação apenas comercial com um patrocinador. E “sempre” é um compromisso que ninguém deveria assumir com um banqueiro às vésperas da prisão. Não é uma frase arrancada do contexto: é a frase que resume o contexto.

O que a palavra carrega

A mensagem não caiu do céu. Segundo o Intercept Brasil, Flávio negociou com Vorcaro US$ 24 milhões, cerca de R$ 134 milhões, para o filme Dark Horse, sobre Jair Bolsonaro. Pelo menos US$ 10,6 milhões foram pagos entre fevereiro e maio de 2025, para um fundo parado no Texas. O fundo é administrado pelo advogado de Eduardo Bolsonaro, irmão de Flávio.

Em setembro de 2025, Flávio cobrou o banqueiro por pagamentos atrasados. Em novembro, prometeu estar ao lado dele para sempre. Quando o áudio veio a público, em maio de 2026, Flávio chamou a reportagem de mentira pela manhã. À noite, confirmou ter pedido o dinheiro, segundo o Poder360.

No inquérito aberto em julho no Supremo Tribunal Federal (STF), ele é investigado por suspeita de lavagem de dinheiro, evasão de divisas e corrupção, informou a Agência Brasil. Investigado não é condenado, e é justo dizer isso. Mas a direita nunca exigiu sentença para cobrar distância entre políticos e banqueiros.

Um padrão, não um deslize

Se fosse um episódio isolado, talvez coubesse o benefício da dúvida. Não é. Em setembro de 2025, Flávio defendeu a PEC da Blindagem, proposta que dificultava processos contra parlamentares, e a chamou de “sobrevivência”, segundo o Jornal de Brasília.

PEC é uma proposta de emenda à Constituição. Aquela, em particular, tornava mais difícil investigar e processar deputados e senadores. A Comissão de Constituição e Justiça do Senado a rejeitou por 26 votos a 0, informou a Agência Brasil. Nem um único senador da comissão a defendeu no voto.

Quem trata a blindagem de políticos como questão de sobrevivência e chama um banqueiro de irmão está nos dizendo algo. A mensagem é sobre prioridades. E elas não coincidem com as nossas. Ética pública não é um tribunal; é um critério de escolha.

Não somos os primeiros, à direita, a sentir o incômodo. O pastor Silas Malafaia se afastou de Flávio em junho, depois do áudio com Vorcaro. Voltou a apoiá-lo em agosto, mas avisou que não organizaria atos de campanha, segundo o Poder360. O bispo Rodovalho disse que os evangélicos davam a Flávio o benefício da dúvida, relatou o SBT News.

Benefício da dúvida é o que se dá a quem ainda não explicou. Flávio já teve meses para explicar. Em agosto, a Lupa classificou como falsa a afirmação dele de que já tinha mostrado os contratos e os dados do fundo. Em maio, ele mudara de versão no mesmo dia.

A dúvida, a esta altura, é dele, não nossa.

Ninguém está pedindo que o leitor de direita goste de Lula. O pedido é outro, mais simples: que não empreste a bandeira do combate à corrupção a quem escreveu “irmão” a Vorcaro.

O que diz Flávio Bolsonaro: em 13 de maio de 2026, ele confirmou ter buscado patrocínio privado para um filme privado. Negou ter oferecido qualquer contrapartida a Vorcaro e negou o uso de dinheiro público, segundo o Poder360.

Falsa direita é isto: vestir a camisa do combate à corrupção e escrever “irmão” a um banqueiro na véspera da prisão. A direita anticorrupção merece um candidato que possa olhar o eleitor nos olhos ao falar de ética. No dia 25, não é preciso trair a direita para recusar Flávio. Recusá-lo é, justamente, ser fiel a ela.

A direita já perdeu eleições e se reergueu. O que nenhuma corrente política sobrevive é perder a credibilidade do próprio discurso.

Fontes