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A direita que aplaudiu a Lava Jato não pode fechar os olhos para o caso Dark Horse

Doleiro delator, fundo no exterior, dinheiro sem registro de volta: o caso Dark Horse tem o que a direita aprendeu a combater. Só muda o nome do investigado.

Este é um artigo de opinião. Ele reflete as ideias do autor, não necessariamente as do Jornal Tiradentes.

Milhares de manifestantes vestidos de verde e amarelo ocupam o gramado e o espelho d'água em frente ao Congresso Nacional, em Brasília.
Manifestantes protestam contra a corrupção no gramado em frente ao Congresso Nacional, em Brasília, em 15 de março de 2015 (imagem de arquivo).Foto: Jonas Pereira / Agência Senado / Wikimedia Commons (CC BY 2.0)

Muitos de nós fomos às ruas, de verde e amarelo, contra a corrupção. Aplaudimos a Lava Jato porque ela fez o que parecia impossível: seguiu o dinheiro até o topo, sem perguntar o partido de ninguém.

Hoje, a direita tem diante de si um caso com todos os ingredientes daqueles anos. A diferença é que o investigado é o candidato do nosso campo à Presidência. E a eleição é daqui a seis dias.

Os ingredientes que conhecemos

O caso Dark Horse começa com um banqueiro. Segundo o Intercept Brasil, Daniel Vorcaro, do Banco Master, prometeu US$ 24 milhões, cerca de R$ 134 milhões, para um filme sobre Jair Bolsonaro. Quem negociou foi Flávio Bolsonaro.

Passa por uma relação de intimidade. Em 16 de novembro de 2025, véspera da prisão de Vorcaro, Flávio escreveu ao banqueiro: “Irmão, estou e estarei contigo sempre”. Não é a linguagem de quem trata de um patrocínio comum.

Segue com um fundo no exterior. O dinheiro foi para a Havengate, no Texas, administrada pelo advogado de Eduardo Bolsonaro. Segundo o Intercept, o fundo estava parado, registrado em 2020 para um projeto imobiliário que nunca obteve licenças.

Chega a um doleiro. Em setembro, o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), homologou a delação de Antônio Carlos Freixo Júnior, o “Mineiro”. O inquérito, aberto em julho a pedido da Polícia Federal (PF), apura lavagem de dinheiro, evasão de divisas e corrupção, informou a Agência Brasil.

E termina, por enquanto, num buraco nas contas. Segundo a PF, mais de US$ 12 milhões saíram do Brasil, mas só US$ 2,8 milhões têm registro de retorno. A polícia chamou a divergência de “severa”, relatou a DW, em texto publicado pelo O Povo. Em 16 de outubro, pediu mais 90 dias de investigação, segundo a DW.

Banqueiro, fundo no exterior, doleiro delator, dinheiro sem rastro de volta. Se trocássemos o nome do investigado por um petista, ninguém à direita hesitaria em dar o nome certo a esse roteiro.

O que Flávio pensava da Lava Jato

Há um detalhe que a direita não deveria esquecer. Em agosto de 2020, o Congresso em Foco noticiou que Flávio admitiu que o ex-assessor Fabrício Queiroz pagava contas pessoais suas. Na mesma reportagem, ele aparece criticando a Lava Jato.

A admissão envolvia cerca de R$ 100 mil do plano de saúde da família. O dinheiro, disse ele, era seu. Era o caso da rachadinha, em que ele seria denunciado meses depois e no qual as provas acabariam anuladas, sem julgamento do mérito.

A Lava Jato foi, para nós, mais do que uma operação. Foi a promessa de que ninguém estaria acima da lei. Um candidato que aparecia criticando a Lava Jato enquanto explicava as contas pagas por um assessor não pode, agora, vestir a camisa dela.

O caso também chegou ao debate da Band, em 18 de outubro. Lula afirmou que um eventual indulto de Flávio ao pai poderia beneficiar também Vorcaro. O Poder360 fez a ressalva justa: o benefício não é automático e depende dos termos do decreto.

Ainda assim, a pergunta é legítima para quem defende a Lava Jato. Um presidente que prometeu lealdade a um banqueiro preso em 2025 terá a caneta do indulto e o comando da PF que investiga o caso. Nós não aceitaríamos esse arranjo de nenhum adversário.

Ninguém aqui pede que o leitor goste de Lula. Pedimos que a direita não entregue a bandeira da Lava Jato a quem a criticou num momento em que o problema era dele.

O que diz Flávio Bolsonaro: ele afirma que o dinheiro de Vorcaro para o Dark Horse era privado e lícito e que o fato de ser senador não deu nada ao banqueiro. Atribui a diferença apontada pela PF a um contrato que não foi cumprido, segundo a CNN Brasil.

Investigado não é condenado, e Flávio não é réu. Mas a direita que aplaudiu a Lava Jato não aplaudia apenas sentenças. Aplaudia a recusa em fechar os olhos. No dia 25, fechar os olhos para o caso Dark Horse seria trair o que fomos às ruas defender.

Fontes