Investigações

US$ 24 milhões do dono do Master para o Dark Horse: o que se sabe

Daniel Vorcaro prometeu US$ 24 milhões ao filme sobre Jair Bolsonaro negociado por Flávio. O caso virou inquérito no STF por lavagem, evasão e corrupção.

Parlamentares reunidos atrás de um púlpito com microfones, em entrevista coletiva no Congresso Nacional.
Parlamentares anunciam, em 3 de fevereiro de 2026, o pedido de abertura de uma comissão mista de inquérito sobre o caso Banco Master, no Congresso Nacional (imagem de arquivo).Foto: Jefferson Rudy / Agência Senado / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

O banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, prometeu US$ 24 milhões, cerca de R$ 134 milhões, para o filme Dark Horse, sobre Jair Bolsonaro. Quem negociou o dinheiro foi o filho Flávio Bolsonaro, hoje candidato do PL à Presidência, segundo o Intercept Brasil. É a única investigação criminal aberta contra Flávio.

O valor dá a medida do caso. Os R$ 134 milhões prometidos equivalem a mais de 15 vezes o que a produtora do filme tentou captar pela Lei Rouanet. Segundo a Agência Lupa, o pedido foi de R$ 8,59 milhões e acabou recusado. A Rouanet é a lei federal que permite abater do imposto o dinheiro investido em projetos culturais.

O caminho do dinheiro

Pelo menos US$ 10,6 milhões, cerca de R$ 61 milhões, foram pagos entre fevereiro e maio de 2025. O rastreamento posterior elevou o valor a US$ 12,3 milhões. O destino foi a Havengate, um fundo no Texas, nos Estados Unidos, administrado por Paulo Calixto, advogado de Eduardo Bolsonaro.

A Havengate era uma empresa parada. Foi registrada em 2020 para um projeto imobiliário que nunca obteve licenças, segundo o Intercept. O primeiro pagamento do lado de Vorcaro chegou em 14 de fevereiro de 2025: US$ 2 milhões.

As mensagens mostram a relação entre o senador e o banqueiro. Em 8 de setembro de 2025, Flávio pressionou Vorcaro por pagamentos atrasados. Em 16 de novembro, véspera da prisão do banqueiro, mandou uma promessa de lealdade: “Irmão, estou e estarei contigo sempre”.

Vorcaro foi preso no dia seguinte.

O caso veio a público em 13 de maio de 2026. Naquela manhã, Flávio chamou a reportagem de mentira. À noite, confirmou ter buscado patrocínio privado para um filme privado, segundo o Poder360. Negou ter oferecido qualquer contrapartida e negou o uso de dinheiro público.

As versões seguintes não resistiram às checagens. O Aos Fatos contou ao menos 43 declarações falsas de Flávio sobre o envolvimento com Vorcaro. Em agosto, a Lupa classificou como falsa a afirmação de que os contratos e os dados do fundo já tinham sido mostrados.

A investigação no Supremo

Em 22 de julho de 2026, o ministro André Mendonça abriu o inquérito no Supremo Tribunal Federal (STF). O pedido partiu da Polícia Federal (PF), com a concordância da Procuradoria-Geral da República (PGR), informou a Agência Brasil. Eduardo também é alvo.

As suspeitas são três. Lavagem de dinheiro é dar aparência legal a recursos de origem suspeita. Evasão de divisas é mandar dinheiro ao exterior sem declarar às autoridades. A terceira é corrupção.

Em setembro, Mendonça homologou a delação do doleiro Antônio Carlos Freixo Júnior, o “Mineiro”. Delação é o acordo em que um investigado conta o que sabe em troca de benefícios na pena.

E a conta não fecha. Segundo a PF, mais de US$ 12 milhões saíram do Brasil, mas só US$ 2,8 milhões têm registro de retorno. A polícia chamou a divergência de “severa” e, em 16 de outubro, pediu mais 90 dias de investigação, relatou a DW, em texto publicado pelo O Povo.

Flávio é investigado, não réu. Não há denúncia contra ele no caso, e nada foi julgado.

O que diz Flávio Bolsonaro: ele afirma que o dinheiro de Vorcaro era privado e lícito e que o mandato de senador não deu nada ao banqueiro. Atribui a diferença apontada pela PF a um contrato que não foi cumprido, segundo a CNN Brasil, e nega ter oferecido contrapartida.

O que se sabe, portanto, já é bastante. Um candidato à Presidência negociou milhões com um banqueiro preso em novembro de 2025. O dinheiro foi para um fundo parado no exterior, administrado pelo advogado do irmão. E a PF só encontrou registro de volta de menos de um quarto do valor.

O que falta saber depende da investigação, que pediu mais prazo. O eleitor vai às urnas em 25 de outubro antes dessa resposta. Até a checagem da Lupa, em agosto, os contratos que poderiam encerrar a dúvida não tinham sido mostrados. A regra vale para qualquer gestor de dinheiro alheio: quem não mostra os papéis não pode exigir confiança.

Fontes