Investigações

Flávio cobrou Vorcaro por atrasos dois meses antes da prisão do banqueiro

Em 8 de setembro de 2025, Flávio pressionou Daniel Vorcaro por pagamentos atrasados do Dark Horse; em 17 de novembro, o dono do Banco Master foi preso.

Flávio Bolsonaro, de terno cinza e gravata amarela, fala durante entrevista em um corredor do Senado.
O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) concede entrevista no Senado, em 12 de maio de 2022 (imagem de arquivo).Foto: Edilson Rodrigues / Agência Senado / Wikimedia Commons (CC BY 2.0)

Em 8 de setembro de 2025, Flávio Bolsonaro pressionou o banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, por pagamentos atrasados. O dinheiro era para o filme Dark Horse, sobre Jair Bolsonaro. Pouco mais de dois meses depois, em 17 de novembro, Vorcaro foi preso.

A cobrança mostra um senador envolvido no dia a dia do negócio. Flávio não apenas pediu o dinheiro: também cobrou quando ele atrasou. Hoje candidato do PL à Presidência, ele é investigado no Supremo Tribunal Federal (STF) por causa dessa relação.

O que estava sendo cobrado

Segundo o Intercept Brasil, Vorcaro prometeu US$ 24 milhões, cerca de R$ 134 milhões, para a produção do filme. Quem negociou o valor foi Flávio. O áudio da negociação foi publicado pelo Intercept em 13 de maio de 2026.

Pelo menos US$ 10,6 milhões, cerca de R$ 61 milhões, foram pagos entre fevereiro e maio de 2025. Em setembro, veio a pressão por pagamentos atrasados.

Os contratos que mostrariam o cronograma dos pagamentos não tinham sido apresentados até agosto de 2026. Naquele mês, a Agência Lupa classificou como falsa a afirmação de Flávio de que eles já tinham sido mostrados.

A produtora do filme também tentou dinheiro público. Pediu R$ 8,59 milhões à Lei Rouanet, a lei federal de incentivo à cultura, e teve o pedido recusado, segundo a Lupa. O que Vorcaro prometeu equivale a mais de 15 vezes esse valor.

O dinheiro não foi para uma produtora no Brasil. Foi para a Havengate, um fundo no Texas, nos Estados Unidos, administrado por Paulo Calixto, advogado de Eduardo Bolsonaro. O fundo estava parado: foi registrado em 2020 para um projeto imobiliário que nunca obteve licenças, segundo o Intercept.

Do atraso à lealdade

A relação não esfriou depois da cobrança. Em 16 de novembro de 2025, véspera da prisão do banqueiro, Flávio lhe mandou uma promessa de lealdade: “Irmão, estou e estarei contigo sempre”.

Em pouco mais de dois meses, o senador passou de cobrador a amigo incondicional. Os dois papéis têm algo em comum: mostram uma proximidade que vai além de um patrocínio comum entre empresa e projeto cultural.

Quando o áudio veio a público, a primeira reação de Flávio foi negar. Na manhã de 13 de maio, chamou a reportagem de mentira. À noite, confirmou ter buscado patrocínio privado para um filme privado, segundo o Poder360.

A revelação custou apoio. O pastor Silas Malafaia, que havia anunciado apoio em maio, se afastou de Flávio em junho, depois do áudio com Vorcaro. Voltou em agosto, mas avisou que não organizaria atos de campanha, segundo o Poder360.

A Polícia Federal (PF) e a Procuradoria-Geral da República (PGR) viram motivo para apurar. Em 22 de julho de 2026, o ministro André Mendonça abriu inquérito no STF sobre o caso, informou a Agência Brasil.

As suspeitas são de lavagem de dinheiro, evasão de divisas e corrupção. Evasão de divisas é mandar dinheiro ao exterior sem declarar às autoridades. Eduardo também é alvo.

Em setembro de 2026, Mendonça homologou a delação do doleiro Antônio Carlos Freixo Júnior, o “Mineiro”. Em 9 de outubro, a PF pediu ao Ministério da Justiça ajuda dos Estados Unidos para rastrear o dinheiro, segundo a CNN Brasil.

Flávio é investigado, não réu. Não há denúncia contra ele, e nada foi julgado.

O que diz Flávio Bolsonaro: em 13 de maio de 2026, ele confirmou ter buscado patrocínio privado para um filme privado. Negou ter oferecido qualquer contrapartida a Vorcaro e negou o uso de dinheiro público, segundo o Poder360.

A cobrança de setembro desmonta a imagem de um intermediário distante. Flávio sabia o que tinha sido prometido e sabia que os pagamentos estavam atrasados. Um senador no exercício do mandato cobrava um banqueiro por milhões que iam para um fundo parado no exterior. A nove dias do segundo turno, essa é a cena que o eleitor precisa pesar antes de entregar a ele a chave do cofre público.

Fontes