Investigações

A mensagem de lealdade na véspera da prisão de Vorcaro

Em 16 de novembro de 2025, um dia antes de Daniel Vorcaro ser preso, Flávio escreveu ao banqueiro: "Irmão, estou e estarei contigo sempre".

Flávio Bolsonaro, de terno escuro e gravata, fala diante de um microfone da TV Senado.
O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) concede entrevista no Senado, em 24 de junho de 2025 (imagem de arquivo).Foto: Carlos Moura / Agência Senado / Wikimedia Commons (CC BY 4.0)

“Irmão, estou e estarei contigo sempre.” A frase foi escrita por Flávio Bolsonaro ao banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, em 16 de novembro de 2025. No dia seguinte, Vorcaro foi preso. A mensagem faz parte do caso Dark Horse, em que Flávio é investigado no Supremo Tribunal Federal (STF).

O caso veio a público em 13 de maio de 2026, quando o Intercept Brasil publicou o áudio de Flávio negociando milhões com Vorcaro. O dinheiro era para o filme Dark Horse, sobre Jair Bolsonaro. Segundo o Intercept, o banqueiro prometeu US$ 24 milhões, cerca de R$ 134 milhões.

Da cobrança à lealdade

A relação entre os dois não era de um encontro só nem de um pedido isolado. Pelo menos US$ 10,6 milhões, cerca de R$ 61 milhões, foram pagos entre fevereiro e maio de 2025. O destino foi a Havengate, um fundo parado no Texas, administrado pelo advogado de Eduardo Bolsonaro.

Em 8 de setembro de 2025, Flávio pressionou Vorcaro por pagamentos atrasados. Dois meses depois, o tom era outro, e o assunto já não parecia ser dinheiro. Na véspera da prisão, a frase conhecida da mensagem não fala de parcelas nem de contratos. Fala de lealdade.

O tratamento de “irmão” e a promessa de estar “sempre” ao lado do banqueiro vão além do vocabulário de um patrocínio comercial. É a linguagem de uma relação pessoal. E foi dirigida a alguém que seria preso no dia seguinte.

Quando o áudio foi revelado, Flávio deu duas respostas no mesmo dia. Pela manhã, chamou a reportagem de mentira. À noite, confirmou ter buscado patrocínio privado para um filme privado, segundo o Poder360.

A revelação abalou parte da base religiosa que o apoia. O pastor Silas Malafaia, que havia declarado apoio em maio, se afastou em junho, depois do áudio com Vorcaro. Voltou a apoiá-lo em agosto, mas avisou que não organizaria atos de campanha, segundo o Poder360. O bispo Rodovalho disse que os evangélicos davam a Flávio o benefício da dúvida, relatou o SBT News.

Em julho de 2026, o ministro André Mendonça abriu no STF o inquérito do caso, a pedido da Polícia Federal (PF) e com a concordância da Procuradoria-Geral da República (PGR). As suspeitas são de lavagem de dinheiro, evasão de divisas e corrupção, informou a Agência Brasil. Flávio é investigado, não réu.

A lealdade e o indulto

No debate da Band, em 18 de outubro, Lula ligou os dois temas. Flávio promete indulto ao pai, condenado pelo STF em setembro de 2025 por cinco crimes, entre eles golpe de Estado, segundo a CNN Brasil. Segundo Lula, um indulto poderia beneficiar também Vorcaro.

O Poder360 checou o argumento e fez uma ressalva importante. O benefício não é automático: depende dos termos do decreto. Ou seja, não há garantia de que um indulto ao pai alcance o banqueiro.

Ainda assim, a pergunta de Lula tocou num ponto que a mensagem de novembro deixa no ar. Um presidente tem nas mãos o poder de indultar, de nomear e de comandar a PF que investiga o caso. A lealdade prometida “sempre” passa a valer, então, para quem ocupa a cadeira mais alta do país.

O que diz Flávio Bolsonaro: ele afirma que o dinheiro de Vorcaro era privado e lícito e que o fato de ser senador não deu nada ao banqueiro, segundo a CNN Brasil. Atribui a diferença nos valores apontada pela PF a um contrato que não foi cumprido e nega ter oferecido contrapartida.

A mensagem de 16 de novembro dispensa interpretação. Um senador, hoje candidato à Presidência, escreveu a um banqueiro prestes a ser preso que estaria com ele para sempre. Investigado não é condenado, e o inquérito ainda corre. Mas o eleitor tem o direito de levar a frase ao pé da letra no dia 25 de outubro.

Para quem acompanha o dinheiro público, a questão não é a amizade em si. É o que ela pode custar quando quem promete lealdade a um banqueiro preso passa a ter a caneta presidencial.

Fontes