Investigações

Queiroz pagava as contas de Flávio, e o próprio Flávio admitiu

Flávio admitiu em 2020 que Queiroz pagava contas pessoais dele, como R$ 100 mil do plano de saúde; um vídeo de banco o mostra pagando a escola das filhas.

Fachada do Palácio Tiradentes, edifício-sede da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj), no centro do Rio de Janeiro.
Palácio Tiradentes, sede da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj), no centro do Rio, em foto de 24 de setembro de 2022 (imagem de arquivo).Foto: Estela Neto / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

O senador Flávio Bolsonaro admitiu, em 5 de agosto de 2020, que Fabrício Queiroz pagava algumas de suas contas pessoais. Entre os pagamentos, cerca de R$ 100 mil do plano de saúde da família — feitos em dinheiro vivo. Flávio afirmou que o dinheiro usado por Queiroz era dele, segundo o Congresso em Foco.

A admissão entrou no centro da acusação de rachadinha que o Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MP-RJ) movia contra ele. Segundo a promotoria, Queiroz, ex-assessor parlamentar, recebeu R$ 2,06 milhões em 483 depósitos de 13 assessores do gabinete que Flávio comandou como deputado estadual. Do total, 69% em dinheiro, com saques de cerca de R$ 2,9 milhões em espécie. Os promotores alegaram, ainda, que parte do dinheiro teria sido lavada em apartamentos em Copacabana e na loja Kopenhagen.

Rachadinha é o esquema em que assessores devolvem parte do salário ao político que os nomeou. Este jornal separa suspeita de condenação, e o caso exige o exercício: a rachadinha, como esquema, é uma acusação que nunca foi julgada. O que os promotores alegavam — que salários de assessores abasteciam a conta de Queiroz — é justamente a parte que caiu com as anulações. Já a entrevista de 2020, o vídeo do banco e os cheques a seguir estão documentados.

A linha do tempo é curta. Junho de 2020: o vídeo do banco. Cinco de agosto de 2020: a admissão.

Agosto de 2020: os registros dos cheques para Michelle Bolsonaro. Abril de 2026: a nova explicação de Flávio, culpando Queiroz. Nada disso depende de sentença — são registros e declarações públicas.

O vídeo do banco

Em junho de 2020, antes da admissão, o MP-RJ obteve imagens de câmeras de segurança de um banco. Elas mostram Queiroz pagando, em dinheiro, os boletos da escola das filhas de Flávio, segundo reportagem do Poder360. Flávio não negou os pagamentos; negou que o dinheiro fosse de Queiroz. O dinheiro vivo dos boletos dialogava com os números da promotoria: 69% dos depósitos eram em espécie, e os saques somavam cerca de R$ 2,9 milhões.

Queiroz foi preso em junho de 2020, em Atibaia, no interior de São Paulo. A prisão ocorreu em uma propriedade de Frederick Wassef, então advogado de Flávio no caso, conforme a CNN Brasil.

Os cheques para Michelle

Os registros bancários do caso mostraram também um repasse familiar. Queiroz e a mulher dele depositaram R$ 89 mil em 27 cheques na conta de Michelle Bolsonaro entre 2011 e 2016, segundo o Poder360. O valor está documentado, mas não foi objeto de denúncia — ninguém respondeu judicialmente por esses cheques. Jair Bolsonaro disse que eles devolviam um empréstimo.

Em outubro e novembro de 2020, o MP-RJ formalizou a denúncia contra 17 pessoas, entre elas Flávio e Queiroz. Os crimes apontados: peculato (desvio de dinheiro público por quem tem cargo público), lavagem de dinheiro, apropriação indébita e organização criminosa. Em 2022, o Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJ-RJ) rejeitou a denúncia, porque ela se apoiava em provas anuladas por vício de forma. Ninguém foi julgado no mérito — nem para condenar, nem para absolver.

Em abril deste ano, Flávio disse ao Correio Braziliense que encararia a rachadinha na pré-campanha. Voltou a culpar Queiroz. E afirmou que mais de 30 assessores tiveram os sigilos abertos, sem que aparecesse qualquer transferência para ele.

O que diz Flávio Bolsonaro: ele nega que tenha existido esquema, diz que Queiroz agia sozinho e chama o caso de perseguição política com provas obtidas de forma ilegal. Sobre as contas pessoais, afirmou em agosto de 2020 que o dinheiro pago por Queiroz era dele (Congresso em Foco).

A 11 dias do segundo turno, o caso segue sem resposta judicial: quem pagava as contas do senador, e com que dinheiro. A Justiça anulou as provas, rejeitou a denúncia e nunca julgou o mérito. O candidato que disputa o comando do dinheiro público federal é o mesmo que, por admissão própria, tinha contas pagas por Queiroz. Em 25 de outubro, o eleitor decide com o que está registrado.

Fontes