Investigações

Atibaia: Queiroz foi preso no imóvel do advogado de Flávio

Em junho de 2020, o ex-assessor Fabrício Queiroz foi preso em Atibaia, numa propriedade de Frederick Wassef, então advogado de Flávio Bolsonaro no caso.

O senador Flávio Bolsonaro e o advogado Frederick Wassef falam à imprensa diante de vários microfones, no Senado.
Flávio Bolsonaro e o advogado Frederick Wassef em entrevista coletiva no Senado, em 30 de novembro de 2021, dia em que o STF manteve o foro do senador (imagem de arquivo).Foto: Pedro França / Agência Senado / Wikimedia Commons (CC BY 2.0)

O homem que o Ministério Público acusava de recolher salários no gabinete de Flávio Bolsonaro foi preso, em junho de 2020, num endereço ligado à defesa do próprio Flávio. Fabrício Queiroz foi detido em Atibaia, no interior de São Paulo, numa propriedade de Frederick Wassef. Na época, Wassef era o advogado de Flávio no caso da rachadinha, segundo a CNN Brasil.

Rachadinha é o nome dado ao esquema em que assessores devolvem parte do salário ao político que os nomeou. Salário de assessor é dinheiro público: sai da folha da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), onde Flávio foi deputado estadual. Queiroz era o assessor que, segundo a promotoria, concentrava esse dinheiro.

O que levou os investigadores até Queiroz

O caso começou com um alerta do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), a unidade de inteligência financeira do país. Em dezembro de 2018, o Coaf apontou cerca de R$ 1,2 milhão em movimentações atípicas na conta de Queiroz, entre 2016 e 2017. Outros assessores do gabinete tinham depositado dinheiro para ele, segundo a Metrópoles.

No mesmo mês da prisão, o Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MP-RJ) obteve imagens de câmeras de um banco. Nelas, segundo o Poder360, Queiroz paga em dinheiro vivo boletos da escola das filhas de Flávio. O assessor do gabinete aparecia, assim, quitando despesas da família do chefe.

Dois meses depois, em 5 de agosto de 2020, Flávio admitiu que Queiroz pagava algumas de suas contas pessoais. Entre elas, cerca de R$ 100 mil do plano de saúde da família. O dinheiro, disse ao Congresso em Foco, era dele mesmo.

O advogado no meio do caminho

O endereço da prisão pesa por um motivo simples. Wassef não era um conhecido qualquer de Flávio. Era quem o defendia na Justiça justamente na investigação que tinha Queiroz no centro.

Para o contribuinte, a pergunta é direta. Por que o principal personagem de uma investigação sobre salários públicos estava num imóvel do defensor do político para quem trabalhava? Essa pergunta nunca precisou ser respondida num tribunal, porque o caso não chegou a julgamento.

A relação com o advogado sobreviveu ao episódio. Em 2023, Wassef admitiu ter recomprado um Rolex no caso das joias sauditas de Jair Bolsonaro. Depois disso, Flávio disse confiar nele “100%”, segundo O Povo. Não há registro de papel de Flávio no caso das joias.

Os advogados de Flávio aparecem ainda em outro episódio. A Polícia Federal (PF) encontrou a gravação de uma reunião no Palácio do Planalto, em 25 de agosto de 2020. Nela estão Jair Bolsonaro, o então chefe da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), Alexandre Ramagem, e advogados de Flávio.

Segundo a InfoMoney, o grupo discutia como anular o caso e afastar auditores da Receita Federal. Flávio nega envolvimento na reunião.

Em outubro e novembro de 2020, o MP-RJ denunciou 17 pessoas, entre elas Flávio e Queiroz, informou a Agência Brasil. As acusações foram peculato (desvio de dinheiro público por quem tem cargo público), lavagem de dinheiro, apropriação indébita e organização criminosa.

O processo, porém, nunca chegou ao julgamento. As provas bancárias e fiscais foram anuladas por falhas nos pedidos de quebra de sigilo. Em maio de 2022, o Tribunal de Justiça do Rio rejeitou a denúncia, segundo a InfoMoney. O relator anotou que a conduta descrita poderia configurar crimes.

Anulado não é inocentado. As decisões trataram da forma como as provas foram obtidas, não do que elas mostravam. Flávio foi denunciado e nunca julgado.

O que diz Flávio Bolsonaro: ele nega a existência de esquema, afirma que Queiroz agia sozinho e diz que o caso é perseguição política, com provas obtidas de forma ilegal. Sobre a reunião no Planalto, nega envolvimento e afirma ter sido vítima de acesso ilegal a seus dados fiscais (InfoMoney).

Seis anos depois, a cena de Atibaia continua sem resposta judicial. Nenhum tribunal julgou se o dinheiro que passava por Queiroz pertencia, no fim, ao contribuinte fluminense. O que ficou registrado é outra coisa: o assessor no centro do caso foi preso no imóvel do advogado do hoje candidato. A 11 dias do segundo turno, quem pede o voto para comandar o Orçamento da União foi cliente daquele advogado.

Fontes