Investigações

PF vê "divergência severa": mais de US$ 12 milhões saíram e só US$ 2,8 milhões voltaram

A Polícia Federal aponta que só US$ 2,8 milhões dos mais de US$ 12 milhões enviados ao exterior no caso Dark Horse têm registro de volta e pediu mais 90 dias.

Os dois prédios da sede da Polícia Federal, com fachadas listradas em preto e branco e o brasão da PF, sob céu azul em Brasília.
A sede da Polícia Federal, no Setor Comercial Norte, em Brasília, em 1º de abril de 2023 (imagem de arquivo).Foto: Marcos Oliveira / Agência Senado / Wikimedia Commons (CC BY 2.0)

Mais de US$ 12 milhões saíram do Brasil. Só US$ 2,8 milhões têm registro de retorno. A Polícia Federal (PF) classificou como “severa” essa divergência no dinheiro do caso Dark Horse, segundo a DW, em reportagem publicada pelo O Povo. O caso envolve o candidato do PL à Presidência, Flávio Bolsonaro.

A conta é simples e pesada. Menos de um quarto do dinheiro enviado ao exterior tem volta documentada. Mais de US$ 9 milhões ficam, por ora, sem registro de retorno ao país. Em outras palavras, de cada US$ 4 enviados, menos de US$ 1 tem volta registrada.

Em 16 de outubro, a PF pediu mais 90 dias para concluir o inquérito, informou a ConJur. Até agora, não há decisão sobre o pedido. A cinco dias do segundo turno, a investigação sobre o dinheiro negociado por um dos dois candidatos segue aberta.

O caso nasceu de um acordo. O banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, prometeu US$ 24 milhões, cerca de R$ 134 milhões, para o filme Dark Horse, sobre Jair Bolsonaro. Quem negociou foi Flávio, segundo o Intercept Brasil.

Pelo menos US$ 10,6 milhões, cerca de R$ 61 milhões, foram pagos entre fevereiro e maio de 2025. O rastreamento posterior elevou o valor a US$ 12,3 milhões. Esse valor é compatível com o que, segundo a PF, saiu do país.

O destino foi a Havengate, um fundo no Texas, nos Estados Unidos, administrado por Paulo Calixto, advogado de Eduardo Bolsonaro. O fundo estava parado. Foi registrado em 2020 para um projeto imobiliário que nunca obteve licenças, segundo o Intercept.

Por que a divergência importa

O inquérito no Supremo Tribunal Federal (STF) apura três suspeitas: lavagem de dinheiro, evasão de divisas e corrupção. Evasão de divisas é mandar dinheiro para fora do país sem declarar às autoridades. Lavagem é dar aparência legal a recursos de origem suspeita.

A divergência toca nas duas primeiras suspeitas. Se o dinheiro foi para um filme, os gastos e o retorno deveriam deixar rastro. Quando a maior parte do valor não tem volta registrada, a pergunta da investigação fica de pé: para onde foi o restante?

Para tentar responder, a PF pediu ajuda de fora. Em 9 de outubro, solicitou ao Ministério da Justiça que buscasse a cooperação dos Estados Unidos para rastrear o dinheiro, informou a CNN Brasil.

O inquérito foi aberto em 22 de julho de 2026 pelo ministro André Mendonça. O pedido partiu da PF, com a concordância da Procuradoria-Geral da República (PGR), segundo a Agência Brasil. Eduardo também é alvo.

Em setembro, Mendonça homologou a delação premiada do doleiro Antônio Carlos Freixo Júnior, o “Mineiro”. Delação premiada é o acordo em que um investigado conta o que sabe em troca de benefícios na pena. Doleiro é quem compra, vende e movimenta moeda estrangeira, muitas vezes fora do sistema bancário oficial.

A explicação que falta

Flávio tem uma explicação para a diferença: um contrato que não teria sido cumprido, segundo a CNN Brasil. O problema é que, em agosto, a Agência Lupa classificou como falsa a afirmação dele de que os contratos e os dados do fundo já tinham sido mostrados. Os documentos que sustentariam a explicação não estavam à vista.

Investigado não é réu. Flávio não foi denunciado no caso, e nada foi julgado. Mas a lacuna apontada pela PF não é uma acusação de adversário: é um dado da própria polícia, num inquérito aberto com o aval da PGR.

O que diz Flávio Bolsonaro: ele afirma que o dinheiro de Vorcaro era privado e lícito e que o fato de ser senador não deu nada ao banqueiro. Atribui a diferença apontada pela PF a um contrato que não foi honrado, segundo a CNN Brasil.

Em 25 de outubro, o eleitor escolhe sem saber onde está a maior parte desse dinheiro. Um candidato que diz ter tudo em ordem poderia encerrar a dúvida com um gesto simples: mostrar os contratos e os extratos do fundo. Na checagem de agosto, eles não tinham sido mostrados. Quem pede para administrar o dinheiro de todos os brasileiros deveria começar prestando contas do dinheiro que ajudou a negociar.

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