Investigações

O doleiro que virou delator no caso Dark Horse

Em setembro de 2026, o ministro André Mendonça homologou a delação de Antônio Carlos Freixo Júnior, o "Mineiro", no inquérito que investiga Flávio no STF.

O ministro André Mendonça, de toga e máscara, conversa com outro ministro em um corredor do Supremo Tribunal Federal.
André Mendonça (à esquerda), que conduz o caso Dark Horse no STF, no dia de sua posse como ministro da corte, em 16 de dezembro de 2021 (imagem de arquivo).Foto: Isac Nóbrega / PR / Wikimedia Commons (CC BY 2.0)

Um doleiro passou a colaborar com a investigação do caso Dark Horse. Em setembro de 2026, o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), homologou a delação premiada de Antônio Carlos Freixo Júnior, conhecido como “Mineiro”. O inquérito em que o acordo foi fechado investiga o candidato do PL à Presidência, Flávio Bolsonaro.

Doleiro é quem compra, vende e movimenta moeda estrangeira, muitas vezes fora do sistema bancário oficial. Delação premiada é o acordo em que um investigado conta o que sabe e entrega provas em troca de redução de pena. Homologar é o ato em que o juiz confere se o acordo seguiu a lei e o valida.

O conteúdo do que Mineiro contou não foi divulgado nos registros públicos do caso consultados pelo Jornal Tiradentes. O que se sabe é o contexto em que a delação entrou no processo.

O que se investiga

O caso gira em torno do filme Dark Horse, sobre Jair Bolsonaro. O banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, prometeu US$ 24 milhões, cerca de R$ 134 milhões, para a produção. Quem negociou o dinheiro foi Flávio, segundo o Intercept Brasil.

Pelo menos US$ 10,6 milhões foram pagos entre fevereiro e maio de 2025, valor que o rastreamento depois elevou a US$ 12,3 milhões. O destino foi a Havengate, um fundo parado no Texas, nos Estados Unidos. O fundo é administrado por Paulo Calixto, advogado de Eduardo Bolsonaro, segundo o Intercept.

O inquérito foi aberto por Mendonça em 22 de julho de 2026, a pedido da Polícia Federal (PF) e com a concordância da Procuradoria-Geral da República (PGR). As suspeitas são de lavagem de dinheiro, evasão de divisas e corrupção, informou a Agência Brasil. Eduardo também é alvo.

Evasão de divisas é o envio de dinheiro ao exterior sem declaração às autoridades. Doleiros são figuras frequentes nesse tipo de investigação, porque operam justamente a troca e a remessa de moeda. Por isso a delação de um doleiro pesa num caso em que o dinheiro atravessou a fronteira.

A delação não é a única peça nova. Em 9 de outubro, a PF pediu ao Ministério da Justiça que buscasse a ajuda dos Estados Unidos para rastrear o dinheiro, informou a CNN Brasil.

Os números explicam a pressa. Segundo a PF, mais de US$ 12 milhões saíram do Brasil, mas só US$ 2,8 milhões têm registro de retorno. A polícia chamou a divergência de “severa”, relatou a DW, em texto publicado pelo O Povo.

Em 16 de outubro, a PF pediu mais 90 dias para concluir o inquérito, segundo a DW. Ainda não há decisão sobre o pedido.

Uma delação homologada, um pedido de cooperação internacional e uma diferença milionária nas contas. São essas as peças que a investigação reuniu a uma semana da eleição.

O que a delação significa, e o que não significa

Delação não é prova por si só. Pela lei, ninguém pode ser condenado apenas com base na palavra de um delator: o que ele diz precisa ser confirmado por outros elementos. A homologação mostra que o STF considerou o acordo válido, não que tudo o que o delator disse seja verdade.

Flávio é investigado, não réu. Não há denúncia contra ele no caso Dark Horse, e nada foi julgado. Mas a PF ganhou um colaborador de dentro do mercado de câmbio, a área em que corre a suspeita de evasão de divisas.

O que diz Flávio Bolsonaro: ele afirma que o dinheiro de Vorcaro era privado e lícito e que o fato de ser senador não deu nada ao banqueiro. Atribui a diferença apontada pela PF a um contrato que não foi cumprido, segundo a CNN Brasil.

Para o eleitor, o dado essencial é simples. Um candidato à Presidência negociou milhões com um banqueiro preso em novembro de 2025. O dinheiro foi para um fundo parado no exterior.

Agora, um doleiro colabora com a investigação, e a polícia pede mais tempo para fechar as contas. Em 25 de outubro, o voto será dado sem que se saiba o que ele contou. Quem pede o comando do país deveria ser o primeiro interessado em que essa resposta viesse antes.

Fontes