Investigações

Havengate: o fundo parado no Texas que recebeu o dinheiro de Vorcaro

Registrada em 2020 para um projeto imobiliário que nunca saiu do papel, a Havengate recebeu ao menos US$ 10,6 milhões do lado de Vorcaro para o Dark Horse.

Eduardo Bolsonaro, de terno azul, discursa ao microfone na tribuna da Câmara dos Deputados, com a bandeira do Brasil ao fundo.
Eduardo Bolsonaro, então deputado federal, discursa na Câmara em 9 de maio de 2019; o fundo Havengate é administrado por seu advogado, Paulo Calixto (imagem de arquivo).Foto: Michel Jesus / Câmara dos Deputados / Wikimedia Commons (CC BY 3.0)

Em 14 de fevereiro de 2025, US$ 2 milhões chegaram a um fundo no Texas, nos Estados Unidos, que não tinha atividade. Era o primeiro pagamento do lado do banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, para o filme Dark Horse, sobre Jair Bolsonaro. O fundo se chama Havengate, segundo o Intercept Brasil.

A Havengate foi registrada em 2020 para um projeto imobiliário que nunca obteve licenças. O projeto foi abandonado, e a empresa ficou parada. Na linguagem do mercado, era uma empresa de papel: existia no registro, mas não operava.

Quem administra o fundo é Paulo Calixto, advogado de Eduardo Bolsonaro. Eduardo, irmão do candidato do PL à Presidência, Flávio Bolsonaro, também é alvo do inquérito sobre o caso no Supremo Tribunal Federal (STF), segundo a Agência Brasil.

Quanto entrou

O acordo negociado por Flávio previa US$ 24 milhões, cerca de R$ 134 milhões, segundo o Intercept. Pelo menos US$ 10,6 milhões, cerca de R$ 61 milhões, foram pagos entre fevereiro e maio de 2025. O rastreamento posterior elevou o valor a US$ 12,3 milhões.

Para ter uma ideia do tamanho, só o que já foi pago equivale a cerca de sete vezes o valor pedido à Lei Rouanet. A produtora do filme tentou captar R$ 8,59 milhões pela lei federal de incentivo à cultura e teve o pedido recusado, segundo a Agência Lupa.

Na mesma checagem, a Lupa classificou como falsa a afirmação de Flávio de que os contratos e os dados do fundo já tinham sido mostrados. Até aquela checagem, o público não conhecia os documentos que explicariam por que o dinheiro passou pela Havengate. Sem eles, não se sabe quanto foi de fato gasto na produção do filme. Também não se sabe por que o pagamento foi feito a um fundo no exterior, e não a uma produtora em atividade.

Um fundo parado, um rastro incompleto

É nesse ponto que entra a investigação. O inquérito foi aberto em julho de 2026 pelo ministro André Mendonça, a pedido da Polícia Federal (PF) e com a concordância da Procuradoria-Geral da República (PGR). Ele apura suspeitas de lavagem de dinheiro, evasão de divisas e corrupção.

Evasão de divisas é o envio de dinheiro ao exterior sem declarar às autoridades. Lavagem de dinheiro é dar aparência legal a recursos de origem suspeita. Flávio é investigado, não réu: não há denúncia contra ele no caso.

Como o fundo fica nos Estados Unidos, parte do caminho do dinheiro está fora do alcance direto da polícia brasileira. Em 9 de outubro, a PF pediu ao Ministério da Justiça que buscasse a ajuda dos americanos para rastrear os valores, informou a CNN Brasil.

Eduardo tem ainda outro problema com a Justiça. Eduardo perdeu o mandato de deputado federal em dezembro de 2025. Em junho de 2026, o STF o condenou a 4 anos e 2 meses de prisão por coação, segundo a Agência Brasil.

A condenação se deve à busca de tarifas e sanções americanas para tentar barrar o julgamento do pai. O dinheiro do filme sobre o pai, por sua vez, foi parar num fundo administrado pelo advogado de Eduardo, no mesmo país.

Para o eleitor, a pergunta é simples. Por que o dinheiro de um filme sobre o ex-presidente passou por um fundo parado no Texas, administrado pelo advogado do irmão do candidato? Na checagem de agosto, os papéis que responderiam a isso ainda não tinham sido mostrados.

O que diz Flávio Bolsonaro: em 13 de maio de 2026, ele confirmou ter buscado patrocínio privado para um filme privado. Negou ter oferecido qualquer contrapartida a Vorcaro e negou o uso de dinheiro público, segundo o Poder360.

Fundos sem atividade, registrados no exterior, são exatamente o tipo de estrutura que órgãos de controle aprendem a olhar com lupa. No caso da Havengate, quem precisa explicar o arranjo é alguém que pede para comandar o país a partir de 2027. A dez dias do segundo turno, a explicação ainda não veio.

Fontes